A saia de Clara

 

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Comboio suburbano, Boris Savelev (pormenor

Estava escuro debaixo da saia de Clara. Cobertas pela saia comprida, de roda tão completamente fora de moda, as altas pernas – pernas de bailarina – suportavam, de pé, o corpo de Clara, ligeiramente inclinado sobre a janela do comboio. Estava escuro e fresco debaixo da saia de Clara.

A suave inclinação foi, de repente, agitada pela correria de dois homens na entrada norte. Corriam com estilo, organizados, geométricos, em irrepreensível simetria com outros dois homens que, pela entrada sul, surpreenderam Clara e a caótica azáfama dos passageiros na gare. Os quatro homens moviam-se como se a pequena multidão não existisse e a pequena multidão, tocada por um comando invisível, arrumou-se em alas e imobilizou-se porque dois homens perseguiam outros dois homens. “Entrou no comboio” gritou um. “Bloqueia” gritou o outro. A gare obedecia-lhes, o comboio também, e as portas fecharam-se automáticas, tão gélidas como o gélido fim de tarde.

Clara percebeu que eram polícias, mas não percebeu quem perseguiam até sentir atrás de si um sopro desregulado à procura do ritmo certo. Nem se virou logo, nem teve medo depois. Olhou e, quando de frente o olhou, soube que era um fugitivo. Por baixo da escorraçada cara de perseguido, por baixo da mais que certa culpa delinquente, por baixo da sujidade suada e da barba pouco mais que adolescente, sentiu o desafio e, na carruagem vazia, decidiu: “Escondo-o.”

***

Quando os detectives entraram, Clara estava sentada e segura. Nem por isso estava menos escuro debaixo da sua saia. O detective, amável e protector, comentou-lhe a manta sobre as pernas: “Previdente, ah, com este tempo.” “Ikea”, respondeu ela, apontando os sacos. “Eu também” disse a voz do polícia, “Tão em conta. Vou lá no fim de semana. Se tiver fim de semana.” E mostrou-lhe a fotografia duma barba suja em cara adolescente, juntando-lhe a pergunta de circunstância. “Não, não vi. Só estou eu na carruagem, não passou ninguém” comentou Clara, sorrindo à pequena faúlha romântica que julgou ver no olhar do detective.

***

Diogo sabe que é uma seca massa de nervos e músculos disciplinados e eficazes. Um só pavor, único, que as ruas de Chelas nunca lhe tiraram, o medo do escuro. O físico dele tudo aguenta e, mesmo agora, não lhe custa a posição, o completo peso do corpo suportado pelos joelhos, as pernas para cima, pés a baterem-lhe no rabo, e o tronco caído sobre o assento, debaixo da saia da, pensou, “rainha santa”. Dobrado, encolhido, o corpo como duas tábuas perpendiculares, treme de frio e pânico. Está escuro. E faz-lhe medo o escuro que está debaixo da terrível saia salvadora.

Em allegro e sobressalto o comboio começa a mover-se e uma fina onda de calor embate na face suada e suja de Diogo. À sua maneira, e não exactamente com estas palavras, tem pela primeira vez a percepção ontológica das pernas de Clara. O seu fugidio espírito sabe agora que está na presença de outra carne. A imanência, se sobre a imanência se interrogasse, é o calor que lhe invade os membros, em brandas vagas, acre, ao ritmo entrecortado do comboio.

Que medo é este medo que já não é o escuro medo do escuro?” pensa Diogo, sustentado na perpendicular arrumação do seu corpo, debaixo da saia da mulher que nem sequer sabe chamar-se Clara. Quereria, neste preciso momento, não estremecer, para que rosto e mãos palpitantes não tivessem de sentir e não sentir, numa ferroviária e angustiante intermitência, a cálida estranheza da pele de Clara. Os lábios e o nariz de Diogo afligem-se e escaldam. Da fonte maior de calor que, se o escuro se iluminasse, Diogo veria ser o ponto em que as pernas de Clara confluem, separa-o apenas o velado milímetro de seda farfalhante que num lentíssimo vai e vem se encosta e desencosta dos seus torturados lábios.

Nunca foi tão escuro, nunca Diogo teve tanto medo. Só uma darwiniana precaução (ele jurará não ter, no incómodo silêncio, pensado tal coisa) o impede de gritar. Mas ainda se ouve a si mesmo sussurrar, como se a delicada película de seda fosse um microfone que levasse aos ouvidos da que, no escuro da saia dela escondido, não sabe sequer o nome, “Já posso sair?

***

Ana B ajudou Clara a levar os sacos para dentro de casa. Beijaram-se a seguir e, lábios nos lábios, entregaram-se à delícia doméstica de contar o que tinha sido o dia de cada uma. Riram-se quando Clara lhe descreveu o olhar galante do detective. “Julgam que o poder está na ponta da pistola”, sorriu Ana. “O poder é escuro e esconde-se onde menos se espera, às vezes entre as pernas” devolveu-lhe Clara, insinuando-se contra o rabo da amante. “E chegaste a ver o bandido?” Clara levantou-se e, a caminho da cozinha, disse segura “Não, nunca o vi. Deve ter-se escondido noutra carruagem.

A verdade é que já não reconheceria, se agora voltasse a ver, a escorraçada cara de perseguido, a mais que certa culpa delinquente, a sujidade suada, a barba pouco mais que adolescente, donde se soltara, quase num lamento, a delicada pergunta: “Já posso sair?” Nem quer, talvez, lembrar-se de, num frémito autoritário, lhe ter respondido: “Não!” E depois, roçando a doçura: “Fique aí, sabe-se lá se eles não voltam!”

Escrito, se bem me lembro, em resposta ao desafio da fotografia acima proposta pela Eugénia, no velho ETGM. Versão ligeiramente revista.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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12 respostas a A saia de Clara

  1. Maria do Céu Brojo diz:

    Está sempre escuro da saia de Clara. Debaixo de todas as saias e calças, arrisco. Mais escuro ainda nas almas de quem as usa, seja um ele ou uma ela a amante.
    Amante é palavra que amo. Perfeita pelos múltiplos sentidos.

  2. Ivone Costa diz:

    É mesmo: lembro-me desta fotografia no ETGM. Bela retoma, Manuel.

  3. nanovp diz:

    Então que venha a policia!

  4. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Tinha saudades d´A Saia de Clara e não sabia! Foi um gosto que o Manuel Fonseca me fez também sem saber – que bom.

    • E se repusesse a sua desaparecida short? Isso é que era uma ideia de Eu-génia!

      • Eugénia de Vasconcellos diz:

        Sabe que sou bem mandada, e a ideia revivalista é gira!

        Mas até hoje não consegui “migrar”, ou lá o que é, uma fartura de ficheiros para o word, quando tento, aparece uma sinalética desmesurada na folha: espero que uma certa uma que jamais diria quem, nem que me enforcassem, é a Rita, me salvarinhe a ficheirada toda…

  5. Se for uma mulher de calças está tudo lixado:

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