Amar-te Assim Perdidamente

"Amour", de Michael Haneke

“Amour”, de Michael Haneke

“Amour” é um dos mais lúcidos, serenos e terríveis poemas de amor da história do cinema. Georges e Anne (Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva, dois símbolos vivos do cinema francês) são um casal de octogenários reformados. Antigos professores de música, gozam uma existência confortável num espaçoso apartamento de Paris. Mas Anne sofre um AVC, que a paralisa do lado direito e a torna dependente dos cuidados do marido. Acontece um segundo acidente cardiovascular, o cérebro é afectado, surge a demência progressiva, e Georges, pouco a pouco, dá por si a habitar com a débil sombra da mulher que amou, e que continua a amar. “Amour” é um filme inesperado na carreira de Michael Haneke. O austríaco, um dos maiores cineastas contemporâneos,  tem o pessimismo como “modus operandi” e a perda como território de eleição: a perda de equilíbrio familiar (o suicídio colectivo de “O Sétimo Continente”, 1989), a perda da segurança do lar (a tortura caseira em “Funny Games”, 1997), a perda de vasos comunicantes entre países, religiões, etnias (“Código Desconhecido”, 2000), a perda do Eu (“A Pianista”, 2001), a perda de tolerância para lidar com a memória (a obra-prima “Caché”, 2005). Ao longo desse caminho, Haneke vai patrulhando as fronteiras da moralidade. “Amour” mantém a perda como centro,  mas é o primeiro filme de Haneke onde a compaixão triunfa. Aos 70 anos, ele chama dois actores que se tornaram vedetas na década de 50, concentrando-se na velhice e, pela primeira vez, o seu olhar ama a coisa olhada: Georges cuida de Anne, ouve-a, cala-a, incentiva-a, leva-lhe a comida à boca, ajuda-a a levantar-se da sanita, limpa-lhe os lençóis, muda-lhe as fraldas, e a sua delicadeza, a sua revolta, a sua tranquilidade, o seu desespero apenas reforçam o amor que por ela sente. Trintignant mostra-se de uma justeza imperial, Riva é simplesmente extraordinária e, com eles – por eles – Haneke suspende a crença na irredutível perversidade do animal humano, concedendo-lhe o benefício da dúvida, às portas da morte. Trata-se de um pequeno milagre. E de um grande filme.

 

Publicado na revista “Sábado”

 

 

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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5 respostas a Amar-te Assim Perdidamente

  1. Rita V diz:

    o teu texto faz-me ter pena de não ter ainda visto o filme

  2. Maria do Céu Brojo diz:

    Amiga foi ontem espetadora do filme. Também exigente, teceu laudas à obra. Não perderei oportunidade.

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    Maldito acordo! Lá vem, again, uma espetadora em vez de expectadora. Fogem-me as teclas para o disparate, está visto!

    • Curioso (acordado) diz:

      O acordo vai ter as costas largas e o melhor seria largá-lo, pois os ganhos são mais perdas.
      Aqui as teclas também são inocentes… pois trata-se de espectáculo, ficando bem como espectadora.

  4. A Keira Knightley desviou-me da sala do Trintignant e da Riva. Não sei se consegues imaginar o arrependido que estou.

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