Antes da cruz

Natividade. Josefa de Óbidos. entre 1650 e 1660
Óleo sobre cobre. 21 cm x 16 cm
Colecção particular

O barroco português é coisa de pouca monta ao lado do esplendor espanhol, deve-lhe sombras e veludos escuros mas fica sempre em antecâmaras apertadas, na busca do decoro e na rejeição do maneirismo, coisa mais propensa à vanitas do que à devoção. Um quadro onde as trevas são bem-vindas, esta Natividade portuguesa porque não é tenebrista quem quer,  é só quem vê no escuro. Entre a cortesia convicta de São José e o gesto da Senhora passa a vida e a ela vejo-a muito por aí, batôn composto e pérolas falsas, a amparar tudo o que nasce-para-a-morte. O Natal é só a antevéspera da cruz.

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.

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13 respostas a Antes da cruz

  1. Tem toda a razão, Ivone. Nesta terra só fica escuro, escuro, na poesia. Os poetas, é assim, estão sempre a fechar os olhos. Os pintores, claro, têm de os abrir e por aqui a luz é muita. Há, na pintura, um Ecce Home, mas cheira-me mais que veio cá parar…

  2. curioso (puopadinho) diz:

    parabéns por se ter distanciado um pouco mais da morte, mesmo divina. a época é mais natalícia, permitindo adiar por uns tempos o fim tenebroso duma jornada de reformas. talvez uma vela energética assim nos ajudasse a poupar para os juros 😉

  3. cg diz:

    Não publique este comentário. O texto não me parece muito feliz. Parece-me confundir barroco com rocaille, uma degradação decorativista. E o maneirismo é propenso à vanitas? Dizer tal coisa dentoa uma concepção oitocentista do maneirismo. Nem o tenebrismo é maneirista! Há tenebrismo em algum Dürer.
    Não quer rever essas concepções?
    Gosto do que escreve e o tom sentencioso, perto do aforístico não é desagradável mas, para resultar devidamente, precisa de repousar solidamente nos conceitos.
    Creio que tem um lapsus: é “quem vê” e não “que vê”, creio.

    • Ivone Costa diz:

      Caro/a anónimo/a, então por que motivo não publicaria o seu comentário? Muito o agradeço, já não tanto o anonimato que sempre me agasta. Como bem depreenderá, a minha área de formação não é a História da Arte e há, obviamente, muitas concepções que adquiri e fui revendo e reformulando ao longo dos anos. O seu comentário é mais uma razão para o voltar a fazer e deixar de ter uma concepção oitocentista do maneirismo.
      E sim, é um lapsus calami já devidamente corrigido e, agora, agradecido o reparo.

  4. fernando canhão diz:

    ante­vés­pera da cruz? e porque não Preamble?

  5. curioso (orto doxo) diz:

    então não é o advento?

  6. Maria do Céu Brojo diz:

    Ora bem!

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