Às vezes basta morrer

Van Gogh, Pair of Shoes, 1886

Em vida, Van Gogh só vendeu um quadro…

Há um mito que, de tão tranquilizador para críticos idiotas e artistas cabotinos, me encanita um bocadinho. Reza assim: “As obras incompreendidas hoje, serão descobertas amanhã”.

Com boa vontade, mas mesmo muito boa vontade, talvez aconteça num ou dois casos. Prefiro pensar que, maioritariamente, as obras incompreendidas hoje continuam a ser incompreendidas amanhã. Prefiro pensar e a estatística e a História dão-me razão. Todinha.

 Milhares, mesmo milhões de obras, incompreendidas hoje, serão lógica e irremediavelmente mais esquecidas amanhã e ainda mais depois de amanhã. Por mais eufórico que tente ser, acabo submerso por este cepticismo cartesiano a que o veneno do tempo acrescenta, diga-se, este outro azedo tempero: “Muitas obras compreendidas hoje serão, lógica e legitimamente, incompreendidas amanhã.

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…bastou-lhe morrer para que, ainda no seu tempo (só estava morto, mas era o tempo dele), a sua obra começasse a ser aclamada

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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19 respostas a Às vezes basta morrer

  1. São obras anacrónicas, coitadinhas. Se não são compreendidas no seu tempo é porque não pertencem a esse tempo ou a tempo nenhum. Haverá excepções, mas serão sempre excepções.

  2. Eugénia de Vasconcellos diz:

    O meu rico McCormick, que raro dá entrevistas, diz que é fazer e fechar os olhos ao público e ao futuro, escrever como se os leitores fossem um só ou nenhum ou milhões, igual. Talvez. Não sei. Ele teve bolsas para pagar a conta da luz, este, vivia do que lhe dava o irmão, não era?

    O melhor do mundo, o mais bonito, é viver como um desesperado – não é o desespero do dramatismo, é apenas, sem esperar. Despojado.

  3. Panurgo diz:

    Atão e o Dan Brown e o Damien Hirst? Incompreendidos não são eles… rica morte a nossa.

    Por falar em grandes obras, ainda não consegui parar de rir com a epopeia do Rei Artur e da sua némesis «Laçarote» lá naquele jornal onde escreve. Faça-me já aí XIII cantos e entregue-se à imortalidade, Manuel! Lendas nacionais de disputas entre otários, imbecis, burlões, idiotas, etc., são sempre do tempo desta abençoada Nação. Nem é preciso morrer. É escrever, que às vezes escrever é uma risada de barriga a bexiga.

    • Tanta alegria, a sua, Panurgo, Mas que bom, sou lá agora pessoa para lhe estragar o gáudio. É um gosto vê-lo rir assim.
      (Já reparou – reparou de certeza – no bonito elogio que, de tanto se rir, faz ao Expresso?!)

      • Panurgo diz:

        A alegria é apenas uma discordância mitológica. É que a Arte (se eu bem a entendo) não é compreendida ou incompreendida. Ela tão-só Simboliza. Longe vão os tempos em que os homens a viviam… como se sabe, ali pelo folclore iluminista, mais do que aceite, passou a ser imposta, manipulada, suja. As bruxas do Macbeth eram, afinal, verdadeiras profetas.

        No nosso caso é diferente. Nunca tivemos Arquitectura, Pintura, Literatura, Filosofia ou Matemática que se visse. Mas excedemo-nos na nobre arte do Furto e do Engano. Neste caso fez-se arte, tal como naquela pantomina célebre em que o advogado aconselha o seu cliente a imitar um burro perante o juíz, e acaba ele vítima de tal estratagema na hora das contas. Como Arte que foi, haja alguém que a cante.

        (a imprensa – toda ela – nem elogiada nem criticada por mim: extinta.)

        • curioso (mor daz) diz:

          sim… ex tinta, porque agora pode ser só virtual e poupa-se muito em desperdícios energéticos e poluitivos (e outros motivo$)

        • Bst diz:

          Tivemos literatura, poesia e historiografia que se vissem, sim senhor.
          E alguma filosofia (Escola de Coimbra).

  4. Sim, o teu não mito é bem mais certo.
    O Nicholas de Stael matou-se por causa dum crítico – mas primeiro foi reconhecido…

  5. Maria do Céu Brojo diz:

    Perdi-me nas reproduções das telas. Adoro perder-me. Esta foi belíssima perdição.

  6. nanovp diz:

    Morrer pode facilitar as coisas…

  7. Bst diz:

    Van Gogh vendeu um só quadro. Talvez. Mas o reconhecimento dos seus pares teve-o. O génio não reconhecido é um mito romântico e inexacto. Há anos alguém lembrava que, em Portugal, quem esteve mais próximo de preencher esse estereotipo foi Cesário Verde mas, mesmo esse, foi reconhecido como um grande poeta em sua vida – embora por um grupo restrito.
    A não ser que queria significar que antes a morte do que a falta de sucesso comercial.

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