Chorai meninas, chorai (e desmaiai)…

Nunca me esquecerei de um concerto em que Marco Paulo (sim, leram bem, o je viu um concerto de Marco Paulo) cantava uma coisa qualquer em que a certa altura dizia: “Virá um dia qualquer/ Tu serás a minha mulher”. Esta segunda frase dizia-a ele do palco, apontando, a cada sílaba, para um lugar diferente da plateia, ou do terreiro onde, uma por uma, meninas gritavam e desmaiavam.

É verdade, o dedo de Marco Paulo parecia uma Beretta 98 a disparar com precisão olímpica.

Também me lembro do filme da chegada dos The Beatles aos Estados Unidos, quando as meninas puxavam os cabelos e davam gritos histéricos. A música é outra, mas a reação é na essência a mesma.

Acontece – e eis o que aqui me traz, pois só trato de música chata e boa – que já no séc. XIX as meninas desmaiavam com os acordes de artistas populares. O mais eficaz foi Franz Liszt (1811-1886), compositor e pianista de mão cheia (muito cheia mesmo, as suas obras estão repletas de acordes a necessitar de mãos gigantescas). E entre as músicas de Liszt mais desmaiáveis, digamos assim, estão as Seis Consolações S. 172, os Três Sonetos de Petrarca S. 270 e os três Sonhos de Amor S.541, que o fabuloso Barenboim reuniu num único disco.

Destes o nº 3 em Lá bemol maior (que dizem ter sido uma obra feita para a iniciação do compositor na Maçonaria, mas isso não tenho a certeza), tornou-se a mais desfalecente do seu reportório.

Aqui a deixo (com a partitura), na certeza de que em tempos de igualdade de género (que é uma das expressões que mais odeio), qualquer um de nós, homem ou mulher pode, senão cair de amor, pelo menos chorar a ouvir talvez a mais romântica das músicas. Porque ouvir música também é triste.

 

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
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5 respostas a Chorai meninas, chorai (e desmaiai)…

  1. Armando Jorge Miguez diz:

    Ser triste é ser o alegre mais capacitado para fazer sorrir. Só quem sabe o que é a tristeza, consegue mergulhar na alegria e salpicar os outros.

    • Henrique Monteiro diz:

      Reverendíssimo pastor, só quem tem ovelhas sofre a sério com a tristeza do rebanho.

  2. Henrique, então e a a Serenata do Schubert? Choram elas e choramos nós. Gostei que me fartei.

    • Henrique Monteiro diz:

      A serenata do Schubert está guardada para melhor ocasião. Há a versão piano e a versão piano e violino, ambas são muito dadas aos amor platónico…

  3. nanovp diz:

    E será que ainda dá puxão de cabelo ? Ou só choro desmedido?

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