Como se faz uma obra-prima

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A Batalha de Lepanto, National Maritime Museum, Greenwich,
até 27 de Janeiro na Gulbenkian, exposição Idades do Mar

 

Ao olhar o quadro A Batalha de Lepanto, de autor anónimo, incluído na exposição as Idades do Mar (devem vê-la na Gulbenkian até 27 de Janeiro), lembrei-me de Cervantes. O autor de D. Quixote participou na enorme batalha que reuniu, em 1571, espanhóis, venezianos, estados pontifícios e cavaleiros de Malta (a Liga Santa) contra o império turco. A vitória coube aos primeiros, sob o comando de D. João de Áustria, filho de Carlos V e irmão do nosso Filipe I (que aliás o nomearia depois governador dos Países Baixos, onde ficou famoso pela repressão).

Apesar de ter sido uma vitória rápida, em três horas, Lepanto ficou no imaginário do Ocidente como uma viragem. Mas foi ali, também, que Miguel de Cervantes Saavedra ficou com a alcunha de O Manco de Lepanto, ao ter inutilizado a mão esquerda.

Antes de regressar a Espanha, Cervantes esteve preso por piratas em Argel e andou por Lisboa, onde entretanto estava a corte de Filipe. Foi aqui que recebeu 50 escudos para ir espiar Orán, no Norte de África. Mais tarde, casar-se-ia com uma mulher de Esquivias, perto de Toledo, onde passou a viver (tinha nascido em Alcalá de Henares). Mas foi em Sevilha que a sua obra-prima começou a ser escrita. Estava na capital andaluza, onde era comissário dos mantimentos para a Armada Invencível – a tal que foi derrotada pelos ingleses noutra grande batalha marítima. O dinheiro que recolheu em impostos para a Armada desapareceu, ao que parece porque o banco onde o colocou faliu, e Cervantes foi de novo preso.

Sem nada que fazer num pequeno cárcere, com uma única mão operacional, pegou numa pena e engendrou o Engenhoso Fidalgo D. Quixote de La Mancha, habitualmente considerado o primeiro romance moderno.

Ainda haverá escritores com histórias destas? Refiro-me à vida real, não ao romance…

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
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8 respostas a Como se faz uma obra-prima

  1. Henrique, não sei se mais do que Lepanto, mas Lisboa tem um lugar forte no imginário de Cervantes. A beleza da cidade cantou-a ele em “Libro Tercero de los Trabaljos de Persiles y Sigismunda”. A ver se caço o excerto e o trago aqui. Ah, e já ando há que tempos para falar da (excelente) exposição da Gulbenkian. Fartei-me de gostar,

  2. Henrique Monteiro diz:

    Sim, tambem me fartei de gostar. Quanto ao Persiles y Sigismunda, borá ver quem o descobre primeiro? É que ele tambem anda aqui por casa.

  3. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Se há ainda, não sei, mas a vida de Murasaki Shikibu que engen­drou a História de Genji, habi­tu­al­mente con­si­de­rado o pri­meiro romance moderno, ainda que não tenha passado por Lisboa nem pela prisão, teve uma fartura de acontecimentos.

    • Henrique Monteiro diz:

      Pressinto uma guerra de géneros, mas nada sei da vida da senhora Murasaki. Vou saber, ou tentar,,,

  4. António Barreto* diz:

    Julgo que sim mas talvez seja mais difícil descobri-los.

    (com sua licença publico no meu mural)

  5. Maria do Céu Brojo diz:

    .Cinquenta escudos que valeram de muito. Comparemos com o agora descontando euros e inflações e – estes gerúndios são engraçados, “eu cá acho” – futurando haver quem faça contas a preceito.
    Por experiência sei que cinco mil contos em 1976 correspondem a 375 mil euros no atual, sendo referência os juros mais baixos do Banco de Portugal. .

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