Conto de Natal. Lugar comum

Aos grandes solitários opõe-se periodicamente uma organização do mundo que em nada se compadece com propósitos de silêncio e de sossego.

O Natal, por exemplo, é preciso atravessá-lo e calha a todos um espírito qualquer, venha do passado ou do futuro, ou seja apenas o presente inevitável no que ele tiver de bom e de mau.

– Jorge, não digas isso. Olha que o pai …

– O pai é a única pessoa que me compreende. Sempre vi o pai farto do festival que vocês armam, rabanadas e confusão e a gritaria dos putos, oh, Luísa deixa-me em paz. Ou antes: conta-me lá isso da casa.

Uma casa é grande quando chega e sobra para quem a habita. Dito isto, todas as casas podem ser grandes em determinada altura e pequenas noutra. Logo, uma casa também tem a sua circunstância que interfere directamente com as suas características e de tal modo que pode uma casa não ser mais do que a circunstância. Assim tinha pensado Luísa no dia em que pôs à venda o apartamento que lhe coubera em herança subsequente à morte de um tio solteiro. Refúgio para uns dias de praia, pouco mais tinha do que uma sala e um pequeno quarto e muitos quadros dispostos em desordem por todas as paredes. No chão, almofadas que deviam superar em número os quadros conferiam a todo o espaço um ar de boémia quente e havia nas coisas e nos livros empilhados pelos cantos uma memória de noites mal dormidas e de dias sem rumo. O que não deixava de lhe parecer estranho: o tio recém-morto era um pragmático iluminado. Tinha conduzido uma vida sem desassossegos de maior o que lhe trazia algumas invejas numa família que, de vez em quando, desabava pela ravina dos azares e dos negócios mal pensados. A casa em que morara na maior parte do tempo era de uma quase ascese geométrica só se permitindo a pequenos desalinhos no escritório, alguns livros fora das estantes ou o jornal de véspera abandonado no chão ao pé do sofá. O apartamento de Lisboa era uma réplica em miniatura, branco e arrumado. Por isso, Luísa estranhou aquelas almofadas de cores fundas, demasiado tecido nas janelas e inesperadas porcelanas nos armários da cozinha.

O outro ter-lhe-ia sido mais conveniente para uns fins-de-semana. Estivera lá algumas vezes e sabia-lhe bem pôr o pé na rua e logo dentro da cidade. Mas era do Jaime.

 – E a casa ficou para ti, como já sabíamos.

 Só não sabiam da existência do apartamento da praia. O das almofadas e dos coxins de harém.

Tinha dito, Jaime, não queres trocar? Gostas de praia …

– Não. Dá-me jeito ter onde ficar em Lisboa, sabes bem disso.

Sabia, mas também sabia que ele tinha onde ficar em Lisboa. Tudo bem, cumpriam a vontade do tio. A princípio, ainda tinha passado uns dias lá. Era quase Dezembro e era nessa altura que mais gostava de olhar o mar. Deitava-se na pequena varanda e olhava às vezes para o pélago escuro, outras para o interior e para aquela despropositada decoração num local onde melhor ficariam meia dúzia de coisas fáceis de limpar do que aqueles gongorismos. Ia vender, dava muito jeito o dinheiro. Parecia até uma extravagância aquele remanso de dias de praia, quando lhe faltava conforto noutras zonas da vida. Que tirasse daí a ideia, foi o que primeiro ouviu. Ninguém conseguia vender nada. E era pequeno o apartamento, diziam, uma família com filhos fica apertada, mas pronto, tentava-se.

– Isto é uma caixinha de veludo – dizia uma mulher de ar sonhador – é lindo, mas, é pouco prático. Pequenino.

Outros franziam o nariz à cozinha minúscula. Aparentemente, toda a gente fazia férias em conjunto com duas linhas colaterais e respectivos afins.

– Ó Luísa, anda com isso, fico cansado só de te ouvir.

– Pronto, pronto. Fico com a casa. Já não vendo. Passamos lá o Natal.

As mulheres da família punham-no doido.

– Ó Luísa, ó Luísa. Por mim que não vou lá pôr os pés, tudo bem. Mas não dizes que é pequeno? E praia e Natal, isso liga?

– Ah, também és sensível aos clichés do Natal, dreaming of a white Christmas, o espírito do Natal e isso. Este vai ser um Natal de praia, mano. Chocolate quente na varanda.

– Por mim … não vou.

– O pai …

– O pai nada. O pai está tão farto de vocês como eu. O pai só queria estar sozinho e mãe pôs-lhe três filhos no colo que era para ele não poder ir a lado nenhum. Agora, deixa-o aproveitar, que já não estamos lá a pular por cima dos sofás.

Não adiantava, era deixá-las, deixá-las fazer a festa e as tias e os tios e as primas e tudo ao mesmo tempo e muitos gritos, famílias felizes e algumas hipocrisias e outras tantas pedras no sapato. Desistia. Sim, estava tudo bem desde que Luísa se calasse no telefone e o sossego lhe voltasse a casa. Irra, outra vez não.

– Oh, pai. Pensei que fosse a Luísa.

– Eu não quero ir para a casa da praia. Como é que a doida da tua irmã vai lá meter toda a gente?

– Pai … não sei, mas mais vale…

– Não vou. Vou aí ter contigo. Passamos a noite de Natal juntos. Vamos ser firmes?

– Vamos ser firmes, pai.

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.
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10 respostas a Conto de Natal. Lugar comum

  1. Gostei muito.

    Cristina Carvalho

  2. rita tormenta diz:

    muito bom.
    levei-o comigo, para uma parede virtual, para o oferecer como anteceia.

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    Perfeito! Quanto prazer na leitura…

  4. nanovp diz:

    Eu cá por mim dizia logo que sim, ao Natal na praia e ao chocolate quente na varanda…

  5. Ivone Costa diz:

    Mas isso é o Bernardo, que não é um grande solitário. Os grandes solitários nem a companhia do chocolate querem.

  6. Ana Vidal diz:

    Falas de casas como ninguém, Ivone. São as tuas personagens mais misteriosas. Gostei muito. Beijos, bom Natal.

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