De Cavaco, da tristeza e da beleza

Eu sei, caros tristes, que pode ser fácil misturar o Presidente da República com tristeza. Já com beleza é mais complexo. No entanto, a ele lhe devo um dos mais belos e comoventes momentos da vida.

Foi em Salzburgo, terra do genial Amadeus, quando acompanhava uma visita do Presidente da República, que tive o privilégio de ouvir uma ária já bem minha conhecida, da ópera Flauta Mágica, mas com o plus de a ação se passar na casa do próprio Mozart sendo a cantora acompanhada apenas ao piano – o piano do próprio Mozart.

Ach, ich fuhl’s é, reconhecidamente, a canção mais triste de todas as compostas por Mozart. Pamina, desconhecendo que o seu bem amado Tamino estava preso a um voto de silêncio, que Sarastro lhe havia imposto como prova iniciática (toda a ópera é uma cena de iniciação), pensa que já não é amada, uma vez que ele se recusa a falar. É assim canta esta extraordinária peça (II Ato).

E aqui fica, como prova do que atrás está escrito, a voz (e as legendas em francês) de Dorothea Roschmann (as interpretações de Joan Sutherland, Kiri te Kanawa, Gundula Janowitz e Lucia Popp, pelo menos, são melhores, mas esta produção é sublime).

Ouçam (na cena intervêm Papageno e Tamino com a sua flauta)

 

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
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7 respostas a De Cavaco, da tristeza e da beleza

  1. Ivone Costa diz:

    Ainda bem que li e ouvi, Henrique. Naquele título alguma coisa não jogava …

  2. Um belo fim de tarde, com este trecho lindíssimo da Flauta Mágica. Herdei do Pai o gosto pela Ópera. Obrigado.

  3. curioso (flau tista) diz:

    pois eu também gostei muito do texto em si (não musical) mas também pelo belo dó (semi musical) que, subentendido no título (an zol!), é lá (semi breve) a seguir mi mosamente ex pli citado na intro dução. É figura da mente ópera (para os nossos ouvidos) que, apesar de não ser o que mais aprecio … vou continuar a ‘gramar’ 😉

  4. nanovp diz:

    Uma Obra Prima! Ficámos sem saber se o Presidente também ouviu? E será que gostou??

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