De onde vêm tantos dedos?

La Al Hambra, de onde vêm os recuerdos

Acaso, tia minha, permitis que faça eco de algo que me irrita um pouco? Sim? Ótimo! Uma das coisas que me tem irritado um pouco, nos últimos 20 anos, é a sobrevalorização que damos ao legado árabe no nosso país.

Não me interpreteis mal. Eu sei que há um legado e que ele é importante. Eu fui aluno de Cláudio Torres, o homem que fez de Mértola uma vila-museu e cujo estudo da tradição e vestígios muçulmanos no nosso país é uma preciosa referência.

Também sei das palavras e topónimos começados por al e de variadíssimas outras coisas com que não maçarei a tia agora. Porém, acho que anda aí grande exagero com essa tradição e legado, querendo-a muitos ver em mais música do que é verdade, em mais palavras do que são certas e em mais usos e costumes do que a prudência aconselha.

E assim sendo, tia minha, sempre que me irrita esse exagero, ouço com atenção uma das melhores e mais populares composições românticas para guitarra, inspirada na obra Omíada do sec. X (tão bela, que até o mui católico Carlos V lá viveu). Francisco Tárrega (1852-1909) escreveu os Recuerdos de la Alhambra, descrevendo com música os rendilhados da arquitetura e os sons do paraíso que o conjunto de Granada pretende significar.

Não me venha, querida tia, dizer que a música é árabe. Não é! Ouça aqui John Williams, um australiano que foi o melhor discípulo de Andrés Segovia e delicie-se (se não perceber como um homem sozinho toca isto, não se preocupe. Eu também não percebo de onde vêm tantos dedos).

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
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11 respostas a De onde vêm tantos dedos?

  1. Panurgo diz:

    Ah! Alguém que gosta das seis cordas… e traz logo o Príncipe! Henrique, não me confunda a Tia com o tremolo. Até porque há outra peça igualmente digna de ser ouvida:

    • Henrique Monteiro diz:

      Se gosta de Agustin Barrios, tem Como Llora una estrella – que é uma coisa de ir às lágrimas. Mas não podemos desperciçar todo o conhecimento no mesmo post. Chaque chose à sa place

      • Henrique Monteiro diz:

        Raté!!! O Como Llora una Estrella é do Carrillo e não do Barrios

      • Panurgo diz:

        Lá isso. Nunca mais me calava a falar do Barrios… aquela valsa n. 4… caramba… bom, para a próxima.

        Calculei que estaria a referir-se ao Sonho na Floresta. A autoria nestas coisas pouco importa.

  2. O seu texto lindo! A música emocionou-me! Várias são as razões, adoro guitarra clássica, John Williams toca maravilhosamente, o Alhambra em Granada é um monumento para sonhar e “last but not the least”, já fui muito feliz ao som destes acordes. Obrigado.

  3. Carmo Silva diz:

    Obrigada. Acabei de ficar (muito) mais rica!

  4. a.riès diz:

    Tout est si facile quand les mots coulent de source.

  5. Tenho a mesma sensação face ao famoso legado árabe. Vestígios não chegam para dar corpo a uma tradição vivida e consciente. Belo texto com fecho deslumbrante.

  6. Maria do Céu Brojo diz:

    Bem pensado, melhor visto!

  7. Curioso (topo nímico) diz:

    Al guidares da beira? Al cantarilha? Al feizarão? Al enquer? Al andra? Al meirim? Al coitão?

  8. nanovp diz:

    Lá se foi a herança no dedilhar dos dedos infinitos…

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