Dos Vikings aos «bechameis»

Andrew Ruffhead

Andrew Ruffhead

Nota prévia: há anos, escrevi o texto. Ao deparar-me com ele nos esquecidos, considerei-o atual. Por isso, «cope e siga».

O bacalhau está caro. Caro desde a primeira vez que me vi sentada frente a uma televisão. Muito caro. Nas minhas memórias infanto-juvenis das “Festas, Boas e Prósperas” como era tradicional desejar, pontificam o “Natal dos Hospitais” e as sondagens de rua dos telejornais sobre a carestia do “fiel amigo” português. Ontem como hoje, o entrevistado lamuria, conta da incompreensão pelo custo acrescido, mas compra. Peixe seco inteiro ou à posta ou em lombos congelados livres de espinhas e da maçada do demolho mais o consequente fedor – a nossa atávica pelintrice tem quê de requinte que nos confere o estatuto de pobretes snobes. Alegretes menos, apesar do talento coletivo para, no segundo imediato a uma tragédia, das lágrimas fazermos anedotas.

A crer na história da televisão natalícia, há décadas que o bacalhau devia ter sumido da mesa da Consoada. Mas não. E é contraditória a permanência. Hoje, abastardado por luxuosos molhos com natas, coentros e camarões; ontem, mais barato, somente proibitivo nos queixumes sazonais, vinha à mesa com couve tronchuda, batata, cebola e ovos cozidos. Legumes e tubérculos arrancados à horta de subsistência, ovos postos por galinhas alimentadas a farelo. Com a migração do interior para o litoral, hortas ao deus-dará e finados pintos de galinheiro. Foi o tempo épico dos mini/supermercados e do deslumbre perante a iluminada, diversa e confortável oferta. As catedrais do exagero, vulgo hipermercados, transformaram em roteiro turístico estafado o abastecimento doméstico. Também o bacalhau pagando a conta das luzes de feira.

Embora os vikings nos tenham levado a dianteira na descoberta da espécie, desde as grandes navegações portuguesas do século XV que nos amancebámos com o bacalhau. A cada Dezembro, arrisco participar na choradeira. O «custa-os-olhos-da-cara» incompatível com «bechaméis» piratas – a esmo confundidos com molho branco – e as procissões estagnadas de gentes que aguardam metades de horas para mãos, expressamente contratadas e presumidas geniais, executarem a dificílima(?) tarefa de atascarem os presentes com papel e fita-cola. Mãos e adereços que encarecem o bacalhau. Um ‘não só’ tem cabimento e é preciso.

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade. No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria. Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.
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8 respostas a Dos Vikings aos «bechameis»

  1. Bela bacalhauzada. E eu estou de acordo: há muita metafísica numa boa couve troncha,

    • Maria do Céu Brojo diz:

      ‘Bacalhau com todos’ não dispenso ainda que couve tronchuda esteja pela “hora da morte” (dos adágios beirões não me livro porque quero). Quanto à metafísica, «carradas» delas no mundo das pequenas coisas.

  2. O bacalhau está caro? sempre se pode dançar:

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    O menino dança? Deixe o bufete que os passos acertam. 😉 Não sabe dançar? Ensino sem cobranças.

  4. curioso (mas também) diz:

    e o ‘não só’ era…

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Que o peixe nosso amigo é carestia por mais razões: pescas escassas, quotas pequenas que nos cabem, a crise da indústria pesqueira et cetera.

  5. curioso (nor uega) diz:

    assim sendo, eles não cobravam mais por isso e até haveria promoções, pois o aumentos das vendas compensaria os encargos. E o maior dinheiro entrado em épocas de balanço tem efeitos compensadores.

    obrigado pelo esclarecimento do subentendido 😉

  6. nanovp diz:

    É mesmo voltar à tradição, e cozido sem “bechameis” nem natas, que isso é para os franceses jacobinos…

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