Está ali, desfalecido, a carne exposta e pálida

A deposição de Cristo no túmulo, Giambattista Tiepolo

Este post do Henrique fez-me lembrar um velho texto. Maquilho-o e trago-o à sala.

Deve ter sido num dia chuvoso e agónico. Olho e vejo-o. Está ali, desfalecido, descido da cruz, de frágil e modesta mortalidade, a carne exposta e pálida, as pernas tristemente pendentes. Trouxeram-no até à porta deste Escrever. Decido deixá-lo ficar, cadavre exquis, consciente de que me vou (nos vou) meter em trabalhos.

Não é um morto como os outros. Volta não volta, ressuscita, o que nos vai obrigar a aturada vigilância para que não ande por aí, sempre ao laréu. E nem posso dizer que não fui avisado. Uma pretensa amiga dele (fomos só bons amigos, sublinhou com sorriso resignado) disse-me que em vida ele adorava caminhar: metia-se pelo deserto, descia ao longo do rio Jordão e, com uma ousadia que não lembraria à alegria exultante do nosso Pedro Bidarra, conseguia andar sobre as águas.

Olho e vejo a azáfama à volta do corpo despido. Já foi muito popular, conta-me o pessoal que o tenta encaixar na arca fúnebre mal amanhada – agora, há dúvidas de identidade e já nem o nome se sabe. Biografia errática, chegaram a dá-lo nascido numa vaga cidade da Judeia, embora a família fosse galileia. A paternidade é duvidosa, com insinuações de inseminação artificial, de acordo com espíritos mais prosaicos. Outros, arrebatados, falam de anjos serenos e anunciadores, de um mítico sopro que semeia a vida.

Do pouco que lhe consegui saber sobre a infância, o mais credível é o testemunho de um empregado de escritório português, alcoólico nas horas vagas, que diz tê-lo visto, menino, a chapinhar nas águas (apurando futura técnica, já se vê) e a levantar as saias às raparigas.
(Há um curioso paralelo entre a heteronímia a que, em delírio, este empregado de escritório se entregou e a ideia de que o nosso morto era uma trindade una e indivisível, segundo informação que consta de cartas encontradas em Tarso).

No primeiro acto público que se lhe conhece, parecia aprontar carreira promissora, tendo surpreendido uma sedenta multidão de convidados, num casamento, em Canaã, com o primeiro tinto monocasta de que há memória. Embalado pelo sucesso, abriu olhos a cegos, ouvidos a surdos, fez coxos andarem e pôs mudos a discursar (esta última é uma prática perniciosa que ainda hoje infesta televisões e parlamentos).

Embora as suas actividades, que incluíam multiplicação de pães e peixes, tenham desencadeado vibrantes e histéricas resistências sindicais, os problemas com o sistema de justiça começam quando lhe dá para ressuscitar mortos, primeiro com a menina dos olhos de Jairo, depois com o filho de uma obscura viúva, e por fim com Lázaro, em Betânia. Puseram-lhe escutas, providência cautelar e, por fim, numa sentença de lava mãos, a coroa ecológica e morte carpinteira, de pregos e madeiro.

Olho e vejo o peito magro, as costelas marcadas na pele macilenta. É corpo de poeta. Foi o que o perdeu.

Bem aventurados os mansos porque possuirão a terra,
bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça porque serão saciados
.

As gravações revelam que dizia estes versos com voz de tenor, ao mesmo tempo que advogava, na mão uma pedra e uma linda mulher de rastos na poeira do caminho, uma poética do perdão, sem o triste espectáculo do ressentimento ou a faca e alguidar de vingança. Só perdão entre iguais de amai-vos uns aos outros como eu vos amei.

Olho e vejo-o: a pele branca, anémica. Trago-o para a sala deste Escrever com a condição de que não ressuscite e não fale por parábolas. Mas pode muito bem ensinar-nos a ser humildes de espírito para que seja nosso, na terra, o reino dos céus. Ou seja, pode muito bem ensinar-nos a caminhar sobre as águas.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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8 respostas a Está ali, desfalecido, a carne exposta e pálida

  1. Henrique Monteiro diz:

    Eu gosto de quem fala por parábolas. É a minha única questão sobre este texto; essa condição não devia existir

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Henrique, é negociável, mas quando deres conta tens as figueiras todas secas e hás-de perder horas a separar o trigo do joio.

  2. Ivone Costa diz:

    Há mesmo mais coisas no Céu e na Terra do que sonha a nossa vã imaginação: a melhor réplica ao texto do Henrique já estava escrita antes de ele escrever o texto.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      A sequência também pode ser esta: este texto só descobriu o que era (ou ao que vinha) depois de ler e ouvir o que o do Henrique lhe disse.

  3. curioso (es pírito de na tal)) diz:

    venha a nós… venha a noz (sem parábolas) 😉

    achei giro

      • curioso (giro qb) diz:

        no princípio era… verborreia é mais agora 😉

        sem exageros, também é um grande substantivo. mas ali está numa atitude mais confortável e autêntica
        adj.
        1. Bonito, lindo (ex.: saia gira).
        2. Elegante (ex.: estás gira, hoje).
        3. Interessante, com qualidade (ex.: livro giro).
        4. Que tem qualidades positivas (ex.: ele teve uma atitude gira).
        5. Diz-se de ângulo que mede 360 graus. = COMPLETO

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    Ignoro o original. Mas a maquilhagem resultou tão bem!

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