Eu amo-a, menina Elvira Madigan!

Sempre que estou triste, e hoje estou muito triste, sento-me ao piano e toco. Houve tempos em que, com mais prática, tocava o adágio da Sonata ao Luar de Beethoven. Foi-se a memória e falta-me pachorra para estudar a pauta outra vez. Agora, toco o andante do concerto n º21 em Dó Maior K 467, de Mozart.

É um trecho popular e belíssimo do classicismo e foi o primeiro que me obrigou a trocar as mãos – a direita passar por cima da esquerda, para ir aos graves do piano…

Um dia fiquei surpreendido por esta música ser conhecida por Elvira Madigan. Na minha imaginação, tal dever-se-ia a uma dedicatória de Mozart, razão pela qual fiquei imediatamente apaixonado por Elvira, que desta forma tão sublime ocupara o coração ou, pelo menos, o desejo estouvado de Wolfgang.

Mais tarde descobri que a música (composta em 1785) só se chamou Elvira Madigan a partir de 1967, momento em que um filme sueco (alô PN) com esse nome, realizado por Bo Wideberg, integrou o andante do Concerto nº 21 para Piano e Orquestra como banda sonora. No filme, a interpretação da música (maestro e pianista, como é normal nestes casos) está a cargo de Geza Anda e foi gravada pela infalível Deustsche Grammophon. (Eu ponho a interpretação de Daniel Barenboim, que é para mim divinal).

Deixei de amar Elvira Madigan… Um filme sueco? Conhecer uma obra-prima pelo nome de um filme menor? Continuei, snobemente a chamar-lhe andante do concerto nº 21.

Porém, mais tarde, fiquei a saber que o filme era considerado uma bela obra, ganhando o prémio para melhor atriz em Cannes, através de Pia Degermark (alô Manuel). E foi assim que voltei a gostar de Elvira, uma trapezista dinamarquesa, que se apaixona por um oficial sueco e vivem ambos uma história de amor que acaba em tragédia.

Agora, sim, tudo me faz sentido. Um cineasta retirou do esquecimento uma história de um romantismo exacerbado – o oficial, casado e com filhos, apaixona-se pela trapezista e foge com ela; acossado, mata-a e suicida-se em seguida. Alguém decide que o filme dessa história (que é real e se passou no final do sec XIX) terá como fundo musical uma música que é na cadência e na modulação o retrato do amor e da tristeza. O casamento entre o filme e a banda sonora retirou do esquecimento (ou da posse exclusiva dos eruditos) aquele trecho fantástico.

Nunca vi o filme. A minha Elvira não será invadida por Pia Degermark, que também estrelou em The Vampire Happening e, mais tarde, ficou anorética, segundo leio no IMDb.

Quem eu amo é a Elvira das sensações da música, a Elvira que erradamente imaginei.

E hoje amo-a particularmente.

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
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14 respostas a Eu amo-a, menina Elvira Madigan!

  1. curioso (ama deus) diz:

    pois juntando tudo, com espuma de barbear pelo meio, nada se perde… tudo se transforma 😉

  2. Maria Motta diz:

    Gostei a Elvira, mas gosto mais de si. Continue. Sobretudo a não se levar a sério.

  3. Rosa Maria de Sousa diz:

    Não tenho jeito nenhum para comentários, mas não quero deixar de dizer que gostei da do seu texto, e agradecer-lhe a partilha da música. Que a tristeza não perdure por muito tempo e rápidamente se transforme em doce memória. Rosa Maria

  4. EV diz:

    Não sendo compositora, nem sueca, muito menos trapezista, mas acreditando piamente nessas mesmíssimas elviras que são norte, sul, e este e oeste duma pessoa, sempre gostava de saber como raio é que se pode imaginar Elvira “erradamente” por um pormenorzinho insignificante como nunca ter Elvira existido – fica-lhe bem ser triste, e escrever.

  5. CC diz:

    Quem é que não teve a sua Elvira?! Eu sonhei anos e anos a fio com uma voz da nossa rádio…quando finalmente a voz ganhou uma imagem, nem queria acreditar, é que não podia mesmo ser…Mais vale nunca os ver e deixá-los perdurar como amores para sempre.
    ~CC~

  6. Fiquei, a ler-te, com um bocadinho de pena de ter feito nariz empinado ao filme e à Pia. Conflitos ideológicos, mas não foi este o filme que me fez passar o olho direito por cima do olho esquerdo…

  7. Rita V diz:

    Uma proposta diferente para outro dia triste

    e não é que resulta?

    Trocar as mãos calhou-me neste many years ago. Às vezes ainda estão trocadas … ervilhas nem vê-las!
    😀

  8. Maria do Céu Brojo diz:

    Fazer sonhar é mérito incontestado duma evocação. Esta, em particular.

  9. Maria da Cruz Quitério Correia de Carvalho diz:

    Andava eu hoje novamente à procura de referências sobre o Concerto n. 21, sim, bem apelidado de Elvira Madigan, quando me deparo com este belo texto. Obrigada! Bem haja!

  10. Maria da Cruz Quitério Correia de Carvalho diz:

    Lindíssimo trecho musical aliás!

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