Explicação do Natal às netas

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Andando uma Maria, um dia, pelas bandas da Galileia, e estando um anjo à espreita, emboscado no local, pegaram-se de conversa mole – tal e coisa e coisa e tal…

Uns tantos meses depois, numa velha manjedoura nasceu um filho à Maria. Foi uma enorme alegria, com estrelas a bailar no céu. E a criança crescia e sabia mais, muito mais, do que qualquer outro menino. E embora não saibamos por onde andou 30 anos, sabemos que ele já sabia muito mais do que a Maria, muito mais do que o Anjo,  muito mais do que o José (ainda não falei do José, o padrasto, que era um Santo, mas amanhã direi quem é)…

E o homem, que era agora o menino já crescido, sabia tudo, mas tudo, o que havia para saber: como se veste um lírio, o que come um pardal, por que não se atiram pedras e como se evita o mal. Dizem que curou doentes e que aos mortos lhes deu vida, que transformou água em vinho, que multiplicou a comida… Lá onde o foi aprender, se no Egito ou na Grécia, ninguém parece saber.

Mas o que importa na história é que um menino qualquer, nascido de uma conversa – só pelo verbo, só pela palavra – filho de uma só mulher, todos os anos regressa. E pôde mudar o mundo dizendo só coisas belas que ainda hoje dizemos como se fôssemos autores delas.
Às vezes nem nos lembramos que essas palavras são dele, às vezes já nem sabemos por que razão, afinal, em certa altura do ano, desejamos uns aos outros Feliz e Santo Natal.

 

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
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11 respostas a Explicação do Natal às netas

  1. António Barreto* diz:

    Bonito!

  2. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Vou já explicar tudinho aos sobrinhos – pelo-me por rimas bebés larés.

    • Henrique Monteiro diz:

      Tem de ter netas, aos sobrinhos não vale. Aos sobrinhos diz-se que não há menino Jesus nem Pai Natal. Mariquices é com netos, senão o mundo altera-se. Faça o favor de esperar, ok?

      • Diogo Leote diz:

        Já tenho uma fila de criancinhas atrás de mim a perguntar-me pelos próximos capítulos. Descansa lá a rapaziada, Henrique….

      • Eugénia de Vasconcellos diz:

        Não seja fundamentalista que não é natalino! Se não tenho filhos onde raio vou desencantar os netos?

        • Henrique Monteiro diz:

          Ça viens avec le temps. E depois há os netos dos outros. Eu, como sou despojado, posso dizer-vos, caros tristes, as minhas netas (ah ah, Eugénia, também não tenho netos) são vossas também.
          (Porra, vou ficar com fama de padreca neste grupo, isto está a preocupar-me)

          • Pedro Bidarra diz:

            Já tinhamos o Cardeal
            e já tinhamos il Dottore.
            Ó Henrique, ficas o Monsenhor
            Feliz natal

  3. Panurgo diz:

    Cá eu disse à mais velha das minhas sobrinhas? – ” Sabes porque o tio está tão feliz? Amanhã nasce um homem… vais perceber, um dia…”

    Um Feliz Natal a todos.

  4. curioso (presente) diz:

    uma maria pegada… só rima com risada e uma história p’à pequenada… mai nada.

    vamos à missa do Puto 😉

  5. Ontem comentei, mas pelos vistos não ficou gravado. Cá vai, para a posteridade, porque de posteridade se trata.

    Parece, Henrique, que o estalajadeiro, roído pela culpa de não ter instalado devidamente o casal, terá desabafado com a mulher: “Ora, quem é que, com tudo o que está a acontecer em Roma e com o Herodes aos pinotes na Judeia, se vai lembrar, daqui a dois mil anos, se eu dei um quarto a estes pobres de Cristo ou se os mandei dormir no estábulo!”

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