Fernando Pessoa e Pierre Louÿs

Onde é que está o tempo que ainda há tão pouco tempo eu tinha para passar noites entre Psyché e Lidia?

Organizada por Jean-François Revel, com primeira edição em 1984, na Robert Laffont, “Une Anthologie de la Poésie Francaise” é a mais apaixonada recolha poética que conheço. Quase todos os poemas que lá estão são obras-primas. E os que o não são, são ainda assim poemas admiráveis rasgados por uma emoção lírica e por uma sensibilidade de pele, em primeiro grau. O único critério foi a escolha estética do autor, sem cuidar de escolas, movimentos, didactismos ou representatividades particulares.

Por capricho do alfabeto, exactamente a meio do livro, está “Psyché”, de Pierre Louÿs. É um poema de calma volúpia e recordação. Leiam:

Psyché, ma soeur, écoute immobile, et frissonne…
Le bonheur vient, nous touche et nous parle à genoux
Pressons nos mains. Sois grave. Écoute encor…Personne
N’est plus heureux ce soir, n’est plus divin que nous.

Une immense tendresse attire à travers l’ombre
Nos yeux presque fermés. Que reste-t-il encor
Du baiser qui s’apaise et du soupir qui sombre?
La vie a retourné notre sablier d’or.

C’est notre heure éternelle, éternellement grande,
L’heure qui va survivre à l’éphémère amour
Comme un voile embaumé de rose et de lavande
Conserve après cent ans la jeunesse d’un jour.

Plus tard, ô ma beauté, quand des nuits étrangères
Auront passé sur vous qui ne m’attendrez plus,
Quand d’autres, s’il se peut, amie aux mains légères,
Jaloux de mon prénom, toucheront vos pieds nus,

Rappelez-vous qu’un soir nous vécûmes ensemble
L’heure unique où les dieux accordent, un instant,
À la tête qui penche, à l’épaule qui tremble,
L’esprit pur de la vie en fuite avec le temps.

Rappelez-vous qu’un soir, couchés sur notre couche,
En caressant nos doigts frémissants de s’unir,
Nous avons échangé de la bouche à la bouche
La perle impérissable où dort le Souvenir.

O poema entrou-me docemente nas veias. Minutos depois soube que da última quadra, imperecível pérola de boca a boca trocada, os últimos versos eram, como se diz de filmes e livros, versos da minha vida.

Sentia-os tão familiares e a todo o poema. De repente, pensei em Pessoa e lembrei-me das Odes de Ricardo Reis. Era tarde, a ler já na cama, e em vez da acareação que exigia sonâmbula pesquisa, voltei ao poema. Dormi com ele. Mas depois, não resisti. Sabia que Psyché era «sœur immobile» de Lídia, prima dessa Neera a quem Reis diz, «… passeemos juntos só para nos lembrarmos disto”.

Mas que interessaria encontrar semelhanças, o mesmo timbre, a mesma religião neo-pagã, se Fernando Pessoa, o mistificador de Reis, nunca tivesse lido o poema. E é essa a questão: teria Pessoa, nos anos 10 e 20 do século passado, ao criar os poéticos heterónimos, lido o poema que Louÿs terá escrito no final do século XIX, 20 a 30 anos antes? Fui a este louvável local onde a Casa Pessoa disponibiliza toda a biblioteca do escritor, e consultei a lista dos autores que Pessoa tinha em casa. Pierre Louÿs não consta. Ora bolas, falso alarme, caso encerrado.

Gosto de perder, não me importo, salvo comigo mesmo. Fui ver títulos. Apareceu-me um “L’Amour dans la Poésie Française”, assinado por Gabriel Boissy e Dominique Folacci, com subtítulo prometedor: “Essai suivi d’un recueil de les Plus Beaux Poèmes d’Amour”. Uma edição de Arthéme Fayard, sem data. E a parte vencida de mim logo disse, entre dentes e ressentida, “Bingo”. Online, percorri o livro página a página. No ensaio, uma breve referência a Louÿs. Demasiado curta, pareceu-me. Segui para os poemas. à velocidade da luz, passei a Idade Média, a Renascença, o Classicismo. E ia pensando, mesmo que haja um poema de Louÿs porque raio haveria de ser a “Psyché”? Outra vez bingo! Estava Louÿs e o único poema dele era o que acima leu quem até aqui continuou a ler.

Agora sim, já podia ir reler as odes ricardianas. Bastaria que se sentasse Lídia:

Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos).

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassossegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento —
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim — à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço.

O poema de Reis ecoa o mesmo tranquilo paganismo que de “Psyché” se evola. As mãos que o poeta com Lídia enlaça, rimam com esse grave “pressons nos mains” que a felicidade do segundo verso de Louÿs exige. E essa vida que passa e não fica, que “Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado, Mais longe que os deuses”, que outra coisa é se não a Hora de Louÿs, “… notre heure éternelle, éternellement grande, L’heure qui va survivre à l’éphémère amour”?

Reis segue Louÿs no mesmo culto do instante que, por consentimento dos deuses, se converte em “esprit pur de la vie en fuite avec le temps”. Na imitação ricardiana essa fuga com o tempo é o “momento em que sossegadamente não cremos em nada, Pagãos inocentes da decadência”.

Há uma sombra de ternura que nimba os dois poemas: “Une immense tendresse attire à travers l’ombre Nos yeux presque fermés”, em Louÿs; e que em Ricardo Reis se diria que “Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova, Porque nunca enlaçamos as mãos.”

E as quadras finais dos dois poemas confirmam todas as rimas anteriores, propondo-se como variações sobre o mesmo mote: o “souvenir” que se esconde na “perle imperissable” de Louÿs, a “suave memória de ti, pagã triste e com flores no regaço“ de Reis. Em ambos, a mesma altiva indiferença perante a morte e o tempo; em ambos, o mesmo exaltado amor ao instante em que, holograficamente, resumem a eternidade.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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12 respostas a Fernando Pessoa e Pierre Louÿs

  1. No princípio era

    Brian Eno: Uh… Can I play you… um… some of the new things I’ve been doing, which I think could be commercial?

    Peter Gabriel: Actually, I won’t start like that, sorry. And again: three, four…

    … e fez-se luz (embora de isqueiro)

  2. curioso (coçando) diz:

    ce qu’il faut faire?

  3. Pedro Bidarra diz:

    Ó manuel,
    vejo-te de gabardina até aos pés,
    de gola levanta e cabeça enfiada
    num chapeu de abas largas
    por onde escorre a água da chuva;
    parado, numa noite escura,
    a coberto de uma esquina
    a olhar para a porta da poesia francesa.
    E não é que de lá sai o Pessoa
    com uma antologia debaixo do braço.
    MSF, The Pinkerton of peotics

  4. Panurgo diz:

    Os meus parabéns, Manuel.

  5. curioso (mais cinco) diz:

    quem diria… os amigos (e os políticos) são para estas ocas iões :-

    (http://www.youtube.com/watch?v=RtQwCSprLgM&feature=player_embedded

  6. Maria do Céu Brojo diz:

    Por isto e por aquilo, julgo que serei repetitiva.

  7. Curioso (pessoa) diz:

    Obrigado 😉

  8. nanovp diz:

    São os infindáveis mistérios da poesia e da arte, influências inconscientes ou linguagens abrangentes e universais ?

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