Hoje, avio esta; na volta, aquela

Gayle B. Tate

Gayle B. Tate

Reconto dum conto meu

«Cowgirl» entre cowboys e damas respeitáveis pelo recato ou estatuto. Setenta anos atrás. Dolentes os dias acalorados na urbe pequena. Local: desertos texanos com esparsos bares, poker nas mesas, homens aventureiros com metralha no cinto; elas, decotadas, esperavam arremate no andar de cima ou no salão. Pedido da clientela a justificar sedução paga. Em madeira tabuada, «semi-porta» de empurro. Dentro, a mulher como objeto de desejos precários e consumistas _ hoje, avio esta; na volta, aquela. Talvez ela. Ou não, que o nariz empinado rejeitava ordens e precisões avulsas. Mania. Regra e esquadro pessoal.

O dono/chulo/senhorio do bar vigiava-a de soslaio. Admitiu-a sem a provar pela diferença da candidata ao serviço: prometia na imagem, negava pelo estar. Valia pelo exotismo. Pelo toca-e-foge, vontade e manobra lucrativa. Dela. E safava-se de homens subidos ao quarto esconso. Nele, varandim debruçado sobre rua poeirenta.

Noite após noite, o mesmo. Mas eles bebiam na esperança de a terem nos lençóis finos de que só ela sabia – na admissão, devolvera os grosseiros que lhe afligiam a finura da pele. Para o “consome mais!” bastava o perfume, o olhar negro, o brilho da pele, os ombros desnudos, o roçar do cetim em folhos, a meia de rede preta vislumbrada no sabido sentar. Pé arqueado nos botins com presilhas e salto pequeno. E desconversava. E ria. Muito.

No faz-de-conta, vida. Durando o sol, costurava vestires ousados. Atravessada com pressa a rua fronteira, sombrinha aberta não corrompesse o sol a porcelana do rosto, pagava fitas e tules na retrosaria. Mais tarde, seduzia. Dinheiro entrado na caixa ruidosa sobre o balcão corrido na noite.

Ia ficando. Até um dia. Intocada até querer ou surgir o homem ideado.

Na diferença, banal.

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade. No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria. Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.
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8 respostas a Hoje, avio esta; na volta, aquela

  1. Ivone Costa diz:

    Que belo saloon este.

  2. curioso (a tira dor) diz:

    muito natalício e digno do reconto do PPC: boca fechada não colhe moscas

    • Maria do Céu Brojo diz:

      De natalício nada tem. Mas Natal é passado, presentes são os escritos. Ignoro o que seja PPC. Apenas conto meu.
      Tem a gentileza de me elucidar sobre o “PPC”? Deve ser ridícula a pergunta, mas nunca tal me inibiu na condição de «perguntadora».
      😉

      • curioso (cicer one) diz:

        com todo o (des)gosto: “Este não foi o Natal que merecíamos. Tenhamos orgulho nos sacrifícios que fazemos”.

        tal qual a heroína do reconto: Ia ficando. Até um dia. Into­cado até que­rer ou sur­gir o “homem” ideado.
        Na dife­rença, banal.

        tristemente banal, virtual, para nosso mal 🙁

  3. Há decotes assim, decotes promessa.

  4. nanovp diz:

    Não há “saloons” por estes lados, por isso senti saudades dos filmes…

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