In articulo mortis

 

René Magritte. Les amants.1928
Óleo sobre tela (54 x 73,4 cm)
The Museum of Modern Art. Nova Iorque

O amor é um luxo de gente despreocupada.

– Disse alguma coisa, chefe?

– Eu não.

– Ah, pareceu-me.

Dois corpos e a decomposição a começar no soalho flutuante, as cabeças tapadas, duas écharpes pardas, ou lá o que seja, a velar os rostos.  Junto à morte todos véus são pardos.

O inspector procurou no bolso um quadrado de chocolate. Só ficava um e o dia estava para durar.

– Que apuraste?

– Nada, chefe, quero dizer, prédio grande, não se conhecem uns aos outros. Mas, ó chefe, ela vivia sozinha.

A roupa, dois vestidos e casacos iguais a repetirem-se no roupeiro, já tinha visto. Uma escova de dentes, amor só em visita, nenhuma marca de segundo habitante na casa meio vazia.

– Quase nada no frigorífico, viu chefe? E o gás está cortado. Água,  luz. Mas não há gás.

Vestidos para sair era o que parecia. A gravata dos dias úteis e a morte. Os sapatos dela e mortos os dois sem causa aparente, dispostos no chão, rosto contra rosto, o côncavo e o convexo. Que nem os amantes de Pompeia presos ao tempo pela lava do Vesúvio, de abraço imóvel nos postais ilustrados.  O inspector estava cansado. Desde a morte do bibliotecário que só era destacado para casos recheados de urdiduras simbólicas. Raios, apeteciam-lhes crimes escorreitos, meia dúzia de bons indícios e relatório pronto. As histórias em que se via envolvido pareciam-lhe todas escrita de mulher, ritmo de saltos e estados de alma. Aqueles dois, por exemplo, enlaçados como num quadro de Magritte antes do rigor mortis se instalar. Amantes. Era a única boa desculpa para uma pessoa se agarrar assim a outra.

– Disse alguma coisa, chefe?

– Eu não.

– Ah, pareceu-me.

Ora bem e recapitulando: ela vivia sozinha, sem marcas de coabitação ocasional.

– Chefe, duplo suicídio?

– E os lenços, Sérgio, e os lenços?

– São écharpes, chefe. Quando é que os gajos vêm para tirarmos isto?

Sem marcas de coabitação ocasional mas presa no abraço do par com gravata. Quem os dispusera assim, face a face até ao fim do mundo que nem estátuas jacentes para levantar só no juízo final, para se olharem sem ver a agonia no rosto velado?

– Sabe, chefe, isto do amor nunca são só dois. São precisos dois para começar, é como no tango, mas depois cada um traz mais um e por aí adiante. E essa gente toda que vem à rede é quem mais determina, o chefe acha que eu não tenho mundo mas olhe que já vi muita coisa.

O inspector estava cansado. Em todas as histórias há um ponto em que o inspector está cansado. A Judiciária portuguesa, então, bebe a vida a um homem, mas do que ele precisava mesmo era de quem lhe contasse a história com firmeza, sem aquelas glissades intertextuais que entretinham mas não resolviam. Um pragmático, um bocado amolecido mas um pragmático, tinha dito na entrevista.

– Chefe, já tiraram. Diga lá se vê o mesmo que eu.

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.
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20 respostas a In articulo mortis

  1. Mt bom, Ivone!!!! Cinema, digo-lhe 🙂 (Fátima)

  2. jrd diz:

    Se calhar eram amantes e, como no poema de Rilke, teriam perguntado um ao outro: És tu? Diz-me que sim!
    A seguir suicidaram-se.

    Belo texto. (o chá faz milagres). 🙂
    jrd

    :

  3. ” A SAD SONG CAN MAKE A BLUE HEART SING”

  4. Depois de os ver, o inspector nunca mais foi o mesmo. E a Ivone, chegou a vê-los?

  5. Ivone, um texto destes dá uma grande fita. Não se esqueça de nos avisar quando estrear nas salas de cinema.

    • Ivone Costa diz:

      Sim, troce. Eu não tenho jeito para conversa de lesamants, isso é para os sedutores, tive de ir buscar estes dois para me ajudarem.

  6. Henrique Monteiro diz:

    A sucessão do Magritte está muito melhor do que o cadavre exquis, ó valha-me Deus!

    • Ivone Costa diz:

      Henrique, valha-me Deus foi o que eu disse ao olhar para o cadavre exquis e sem arte para lhe pegar. Olhe, limitei-me a andar em círculos …

  7. Rita V diz:

    Já comi as pipocas todas, mais do que culpada agora espero o resto.
    Então?
    😀

  8. nanovp diz:

    Não sei bem porquê mas lembrei-me da Balada da Praia dos Cães….ou de outra forma, foi um prazer ler…

  9. Maria João Freitas diz:

    Ivone,
    Este quadro de palavras no Museu das Curtas faz aquilo que os bons textos fazem: agarram o leitor pelo colarinho, desde a primeira à última linha e depois deixam-no com o desejo de que continuasse

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