In Excelsis # 11

A igreja era um mastim de pelugem indigo, pentagrama de texturas animais e sinos de porcelana efabulando pendular pelos céus do Antigo Império. Viena não ligava à estrutura esvoaçante porque não a podia ver: só os que acreditavam na bondade dos homens é que tinham acesso às visões de Ra, aos camafeus de Cohn-Brakstin, às sete filhas do Arcanjo Gabriel, aos tapetes voadores de Gilgamesh e a esta sede da Irmandade Dadaísta para a Metódica Destruição da Dor de Cotovelo – os apóstatas chamavam-lhe a Organização.

John Zarco estava à espera há dez minutos. Numa mensagem que se auto-devorou, arrotando em nipónica gentileza, fora ordenado a apresentar-se no funibular dos Meta-Barões, junto ao zoo de gomas e nenúfares de Briggitenau. Apanhara o transporte-morte das cinco. Fora pontual – e Johnny Z era zelosamente pontual, zumbindo a cada chegada – mas ninguém o atendeu. Levou apenas com dois suspiros exalados por uma Santa Engrácia que flutuava pela abside.

 Sentou-se na segunda fila a seguir ao altar, como aconselhado. Um globo de quadrada teimosia dava saltinhos de anti-matéria, berrando “Heisenberg!” a cada toque nas colunas jónicas que o escoltavam. Era o primero altar de anti-matéria da Organização. El Zarkovsky pensou que mais valia ter ficado na transumância do cabaret-zen, o cabarezinho lá em baixo, junto ao povo ainda enraizado. Mas Alfred H. estragou tudo quando decidira cortar cerce o malabar de Jalabar. Este preparava-se para enfiar o dito, sem acrimónia, no meio pêssego sumarento de Soraia, a décima aia de Afrodite. Jalabar não gostou de perder o apêndice da sua melhor obra literária, o corpo que musculava todos os dias no ginásio-biblioteca de Anumakret – afinal, era um visitante dedicado das cortesãs turcas de Alsergrund e adorador principal de Courbet e de Rubens (fora ele a comprar a Pinakothek de Munique à Dama da Verruga, oferecendo o recheio aos filistinos e o edifício a um circo de Omaha). Soraia, inconsolável, enrolou-se com BB, assistida num sublime anal masturbation and object loss pelo holograma de Kim Novak, colheita digital de 1958. O espectáculo foi um mimo. Zarco teve de sair a meio, ainda avistando, de relance, o mindinho da Kim/Carlota/Judith a tilintar mimosas no lóbulo esquerdo da orelha de Soraia – BB rosnava. Alfred H. desmaiou, caindo como uma sequóia diabética sobre os lírios de Bianca Castafiore, proprietária do prostíbulo.

 – John Zarco?

 Ouviu nas suas costas. Era a voz de Orc, o Orquíssimo, Sua Orca Terrorífica, Cardeal da Irmandade, “Humungous Creature of Creatures”, Papa di Tutti i Papi da Organização. Reconheceu-lhe o tom prateado porque falara com Sua Orcandade duas vezes ao teleponto, após aquisição bem-sucedida de uma empresa de tráfico de orgãos na zona franca da Madeira (o cérebro de um tal A.J.J. acabara de dar entrada, em pristino estado de alucinação).

  • John Zarco?

  • O próprio.

  • Não se vire.

  • Não tinha a menor intenção de o fazer.

  • Não se arme em cínico comigo.

  • Não estava a armar-me em cínico. Estava a ser educado.

  • Já me tinham prevenido que você era um tipo difícil.

  • Sou difícil porque respeito as ordens de Vossa Sumidade?

  • Não seja impertinente.

  • Melhorei. De cínico a impertinente.

  • Está a ser cínico outra vez.

  • Esta conversa tem um propósito?

  • A impaciência fica-lhe melhor. É um passo lógico para alguém que vai morrer daqui a sete minutos.

  • Então não era no dia 13/12? Estamos a 2/12.

  • A Teoria da Relatividade Geral também se aplica ao Pentagrama. Apesar de termos tentado tudo para que assim não fosse, mas enfim…

  • Estamos parados. A influência da Relatividade Geral é irrelevante.

  • Não é sem soberba que confesso uma pontinha de orgulho: estamos a circular a 99,7% da velocidade da luz. A si é que lhe parece que estamos parados.

  • Isso significa que…

  • Isso mesmo.

  • Não sabia o que eu ia dizer.

  • Claro que sabia o que ia dizer. Chamo-me Orc, não me chamo Krugman.

  • Então diga lá o que eu ia dizer.

  • Ia dizer “Isso significa que, se mantivermos esta velocidade mais oito minutos, terão passado onze dias na Terra”.

  • Você é mesmo bom.

  • A Soraia nunca me disse isso, sabe? É o meu calcanhar de Ardiles.

  • A Soraia?

  • As mulheres em geral. Não compreendem o… stress a que um semi-deus biomecânico está submetido.

  • A quem o diz…

  • Você é um tipo vulgar, não um semi-deus. Porque diz isso?

  • Ando a benzodiazepinas. Às vezes saem-me desabafos destes.

  • E então?

  • Então o quê?

  • Não quer suplicar pela sua vida?

  • Adiantava alguma coisa?

  • Não. Mas se é um fã de Espinosa, ao menos tiraria alguma consolação do diálogo.

  • Sabe que tenho a impressão de que estamos num monólogo.

  • Não foi por acaso que ascendeu tanto nos serviços jurídicos da Organização.

  • Obrigado. Os elogios profissionais a poucos minutos de ir desta para pior são muito bem-vindos.

  • Vê? Está outra vez a ser cínico.

  • É um privilégio dos vivos.

  • Goze-o enquanto dura.

  • Posso ao menos conhecer o motivo da execução?

  • Não se trata de uma execução. Trata-se de uma aposentação a longo prazo.

  • Longo prazo, a morte? Quem está a ser cínico agora?

  • Não é a única coisa que partilhamos.

  • (olhando para os positrões que valsavam pela colossal estrutura de vidro, aço e pele de leopardo de Java) Não deve estar a falar do gosto em decoração. Você parece o Gianni Versace dos sacerdotes seculares.

  • Não, estou a falar da beleza física.

    Zarco estranhou o comentário. As ordens impediam-no, mas não resistiu: virou-se para trás.

    Orc era Zarco.

    John Zarco, Johnny Z., El Zarkovsky, pirata de Porto Santo, santo traficante da Madeira, advogado de causas ganhas, “il portoghese” em Milão, “The Winner” nas costelas gordas da City, o mais humano dos humanos, era apenas um clone.

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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8 respostas a In Excelsis # 11

  1. Embora não saiba exactamante porquê, acho que faz todo o sentido. Ou será só por tilintarem mimosas no lóbulo de Soraia?

  2. vasco diz:

    John Zarco ou John Difool? E eu a pensar que a era dos Meta-barões, do Incal e da quinta essência já tinha terminado…

    Forte abraço Mr PMS!

  3. Pedro Bidarra diz:

    O que eu adoro a bandalheira que pr’aqui vai. Que cadáver tão vivo, a pulsar de vida.

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    O “Cadavre” palpita e eu com ele. Venha mais.

  5. Sabia que ias gostar das mimosas tilintadas, dottore. Giraud forever, amigo Vasco. Fico à espera dos novos capítulos, companheiros Pedro e Maria do Céu.

  6. nanovp diz:

    Para mim o erro foi Zarco ter olhado para trás…e volta a ferver este cadáver…

  7. Ah!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! adorei!!!!!!

  8. É um cadáver à George Romero, não pára quieto.

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