Lisboa e Cervantes

Prometido aqui ao Henrique, cumpro. Num excesso de zelo, proponho mesmo tradução audaciosa. Camões tinha morrido pouco tempo antes. Esta era a Lisboa que os olhos do português tinham visto. Viam-na agora, assim, deslumbrados, os olhos de Cervantes:

 LIsboa

Ao cabo destes ou poucos mais dias, ao amanhecer de um, disse um grumete, do cimo da gávea principal, donde ia descobrindo terra:

– Alvíssaras, meus senhores! Alvíssaras peço e alvíssaras mereço. Terra! Terra! E melhor seria dizer: Céu! Céu! Porque é sem dúvida a Lisboa que chegamos.

A notícia arrancou lágrimas ternas e alegres aos olhos de todos, especialmente aos de Ricla, dos dois Antónios e aos de sua filha Constanza, porque lhes pareceu terem chegado à terra prometida porque tanto ansiavam.

António lançou-lhe os braços ao pescoço, dizendo:

– Sabes agora, minha bárbara, o modo como hás-de servir a Deus, com uma relação mais copiosa, ainda que não diferente, da que te ofereço eu; verás os ricos templos onde é adorado; verás ao mesmo tempo as cerimónias católicas com que o servem e como a caridade cristã atingiu o cume. Aqui, nesta cidade, verás como os muitos hospitais são os verdugos da doença que destroem, e aquele que neles perde a vida, rodeado pela eficácia de infinitas indulgências, ganha a do Céu. Aqui, o amor e a honestidade dão-se as mãos e passeiam juntos; a cortesia não deixa que se pavoneie a arrogância, nem a valentia que se acerque a cobardia. Todos os seus moradores são agradáveis, são corteses, são liberais e são enamorados, porque são discretos. A cidade é a maior da Europa e a de melhores maneiras; nela se descarregam as riquezas do Oriente e daqui se espalham para todo o universo. O porto é de grande capacidade e encerra não somente uma multidão de navios, mas florestas móveis de árvores que os mastros das naus formam. A formosura das mulheres espanta e apaixona. A galhardia dos homens pasma, como eles dizem. Esta é, enfim, a terra que ao Céu presta santo e generosíssimo tributo. 

Miguel Cervantes, “Libro Tercero de los Trabajos de Persiles y Sigismunda, Historia Setentrional”

miguel-de-cervantes

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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23 respostas a Lisboa e Cervantes

  1. Alvíssaras!
    (desconhecia em absoluto)

  2. Panurgo diz:

    «Na frota de D. João havia um oficial subalterno, Miguel de Cervantes. Perde uma mão nesse combate. Alguns anos mais tarde, é capturado pelos barbarescos. Lançado nas masmorras de Argel, vendem-no a um apóstata grego que encontra na sua posse uma carta de recomendação de D. João da Áustria. Tomam-no imediatamente por um personagem poderoso e o seu resgate é calculado num montante tal que Cervantes só pode ser resgatado ao fim de cinco anos. Esses anos permitiram-lhe sem dúvida sonhar muito. Em todo o caso, o D. Quixote que depois inventa põe termo a essa raça de «cavaleiros andantes» dos quais D. João da Áustria, precisamente, foi uma das figuras mais fascinantes. Entre Lepanto e D. Quixote, alguma coisa de novo se revela ao mundo. O tempo mudou. Os primeiros rumores das épocas modernas fazem-se ouvir. A pirataria vai também sofrer uma metamorfose. O Grande Corso vai nascer.»

    Gilles Lapouge, Os Piratas

  3. Panurgo diz:

    Aquela treta do primeiro romance moderno… que é isso? O Aquiles Tácio entra nesse Preço Certo?

  4. Alvíssaras dava-se ao marinheiro da gávea, por terra nova descoberta, é profissão extinta, resgate é do que precisamos, presos que estamos pelos mouros:

  5. curioso (sem maneiras) diz:

    aqui vai o troco do somefodem 😉

  6. curioso (fadado) diz:

    mensagem triste, sobre a tristeza cantada

  7. Maria do Céu Brojo diz:

    Para mim tenho que a entrada marítima em Lisboa é a mais bela que conheço. Somente, digo eu, rivaliza com ela, do mesmo modo iniciada a vista, Villefranche sur mer. Não admira a rendição dos que a visita(ra)m.
    Belíssimo texto.

  8. curioso (salaud) diz:

    pas mal trouvée… allons-y Marie 😉

  9. Henrique Monteiro diz:

    Dubrovnik. Ninguém vota em Dubrovnik?

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