Mapa-Mundo da Parvoíce

“Cloud Atlas”, de Andy Wachowski, Tom Tykwer e Lana Wachowski

Um desastre, não menos do que um desastre. “Cloud Atlas” é um dos projectos mais ambiciosos dos últimos dez anos. Com um orçamento multinacional de 100 milhões de dólares, trata-se da adaptação do romance do inglês David Mitchell, onde dezenas de personagens distribuídas por seis épocas – a acção alterna entre espaços e períodos tão diferentes como as ilhas Chatam da Nova Zelândia em meados do século XIX e a Polinésia pós-apocalíptica do século XXIV – reproduzem o “angst” do seu tempo e a esperança eterna numa presumível redenção colectiva. Os maiores elogios ao trabalho de Mitchell foram para o cuidado perfeccionista da linguagem de cada período de acção e o sucesso narrativo de uma estrutura complexa, espécie de múltipla clepsidra cujo ritmo é marcado por uma mensagem forte mas subtil de partilha entre as almas da Humanidade. Eis que entra Natalie Portman: a rodar “V de Vendetta” para os produtores Andy e Larry Wachowski (ainda Larry não tinha mudado de sexo para a magnífica Lana, exposta em tranças rosa-choque pelas conferências de imprensa deste mundo), Portman sugere o livro aos irmãos, que se apaixonam pelo texto. Com a ajuda do alemão Tom Tykwer, os manos Wachowski (“Bound”, a trilogia “Matrix”) deitam mãos à massa e saem-se com um portento elefantino – são 172 minutos. É preciso admirar o esforço da empreitada e o engenho colocado na catadupa de saltos temporais. Pelos oito protagonistas (onde se incluem Tom Hanks, Hugh Grant, Jim Broadbent e Halle Berry) distribuem-se 47 personagens (não é gralha) e quilómetros de máscaras, próteses faciais e cabeleiras, transformando “Cloud Atlas” numa espécie de “Circo Chen” dos ricos, mas com palhaços a mais e emoção a menos. É esse o problema essencial deste show de ilusionismo: o que seria subliminar, e de construção refinada, no romance publicado em 2004 torna-se um grito ao megafone dos Wachowski, com frases do género “Estamos todos unidos, do útero ao túmulo” repetidas como humildes lições cósmicas e bandeiras da indivisibilidade da espécie. Ora, quando se olha para Tom Hanks a fazer de gangster londrino ou para Halle Herry em formato de humanóide futurista, recitando “soundbites” ecológicos num dialecto incompreensível, apetece perder a humildade e oferecer a “Cloud Atlas” o manto invisível do Harry Potter.

Publicado na revista “Sábado”

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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7 respostas a Mapa-Mundo da Parvoíce

  1. curioso (par voíce) diz:

    lamento não poder comentar melhor, por não saber (uma par voíce) 😉

    No mundo há os cretinos, os imbecis, os estúpidos e os doidos.

    – Falta alguém?
    – Sim, nós os dois, por exemplo. Ou pelo menos eu, sem ofensa. Mas em resumo, vendo bem, seja quem for pertence a uma destas categorias. Cada um de nós de vez em quando é cretino, imbecil, estúpido ou doido. Digamos que a pessoa normal é a que mistura de maneira razoável todos estes componentes, todos estes tipos ideais.

    Umberto Eco
    in O Pêndulo de Foucault

  2. Li o “Pêndulo” aos 20 anos com grande prazer, curioso. Um abraço.

  3. Vi o trailer. Há muito tempo que não via um trailer que tanto afastasse o espectador. No minimo, tens toda a razão, Pedro.

  4. Imagina 172 minutos de trailer… e eu que fui dos poucos a defender o “Matrix” até às últimas consequências.

  5. nanovp diz:

    Parece ser caso para dizer: saem os palhaços e entram os cavalos…e deixa-me ficar de fora!

  6. Maria do Céu Brojo diz:

    Esse Pêndulo já foi responsável por êxtases meus.

  7. Eu adoro estas criticas super intelectuais, de “críticos” que realmente sabem o que é um bom filme.
    Obviamente um bom filme não pode custar 100 milhões de dólares, ter maquilhagem, e principalmente não pode ser produzido por um transsexual de cabelo cor-de-rosa.
    Essas são críticas bastante valiosas a qualquer filme.
    Eu pergunto-me agora, qual é mesmo a razão de não gostar do filme?
    Tentando deixar de parte o facto da sua opinião realmente determinar se o filme é realmente bom ou não, quais são mesmo as razões para cloud atlas ser um “desastre” (na sua opinião)?

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