Mar de Folhas

Foi preciso chegar aos vinte e quatro anos e ir parar ao novo mundo para que finalmente, e por breves momentos, me pusesse a ler poesia. Por vontade própria digo. Não que lá na minha terra não os houvesse. Há-os e muitos e bons. Mas acho que talvez não tivesse tido tempo. Ou melhor, talvez o tempo dessa minha terra fosse bom demais para ficar sentado na areia a olhar para o mar – como aliás o fazem tão bem os tais grandes poetas da minha terra – sem que uma vontade indomável de me atirar para dentro dele me dissipasse qualquer tipo de poesia interior.

 A verdade é que estava convencido que para se ler poesia fosse necessário possuir uma espécie de diploma PADI que prepara ao mergulho abaixo dos vinte cinco metros da fina escala métrica da sensibilidade humana e eu confesso que até aos vinte e quatro anos era mais propenso aos mergulhos de cabeça do alto de rochedos mais ou menos inclinados,  ou ocasionalmente e em dias de maior contemplação interior, a um bidimensional snorkeling de alta superfície, sem tubo nem barbatanas. Só máscara e arpão afiado. Mas enfim basta de baratas odes marítimas. A verdade é que de poesia, até aí, nicles!

 E depois, de repente, numa ressacada e invernal manhã de domingo, percorrendo os corredores livrescos de uma Barnes & Noble plantada no coração de uma não menos inóspita wasteland suburbana do estado da Pensilvânia, se fez luz (ou fez-se o mar, já agora, porque não?). Não sei se sou só eu, mas consigo sempre perder-me nestas “bookstores on steroids” onde o lay-out gigantesco se desenvolve em torno a uma coffee shop numa espécie de carroussel sem fim de Fiction, Novels, Biographies, Military History, Photography, Americana e de novo Fiction. E assim, nessa manhã, perdido entre a secção das Graphic Novels e aquela de Music and Arts, vi-me sem querer na secção de Poetry em frente a uma estante de volumes em promoção. “Poetry – 3 for $5” diziam os stickers cor de rosa.

 E foi aí que na página trinta e seis o li pela primeira vez.

Beginning My Studies

“Beginning my studies the first step pleas’d me so much,

The mere fact consciousness, these forms, the power of motion,

The least insect or animal, the senses, eyesight, love,

The first step I say awed me and pleas’d me so much,

I have hardly gone and hardly wish’d to go any farther,

But stop and loiter all the time to sing it in ecstatic songs. “

E descobri ali, naquela manhã cinzenta que afinal a poesia também se faz através da natação à superfície e de mergulhos de cabeça. E que Walt Whitman, em 1855 me tinha escrito um poema. E que segundo ele próprio, nem sequer valia a pena passar da página trinta e seis. O “Leaves of Grass” esse, veio comigo até aqui. Talvez hoje passe à página trinta e sete.

Sobre Vasco Grilo

Quando era rapazola dei demasiadas cabeçadas com a minha pobre caixa de osso. Hoje, como deliciosa consequência, encontro a minha razão intermitente como uma rede WI-FI, sem fios nem contrato fixo. Por vezes suspeito que a minha alma seja a de um velho tirano sexista e sanguinário, prisioneiro no corpo perfumado e bem-falante de um jovem republicano. Mas talvez eu seja só é um bocado sonso. A cidade para onde me mudei no final do século passado chama-se Aerotrópolis. Daqui partem todas as estradas e para aqui todas elas confluem. Em seu redor e para minha sorte, está um mundo que é grande e ainda muito comestível. Creio que a verdadeira felicidade possa causar uma certa tristeza. E por isso e só por isso, aqui, escreverei.
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13 respostas a Mar de Folhas

  1. Tanto, belíssimo, mar.

    “Ao Começar Os Meus Estudo” traduziu-o para português outro poeta, José Agostinho Baptista, assim:
    Ao começar os meus estudos, o primeiro passo agradou-me tanto,
    O mero facto da consciência, as formas, o poder do movimento,
    O mínimo insecto ou animal, os sentidos, a vista, o amor,
    O primeiro passo, digo eu, tocou-me tanto, agardou-me tanto,
    Que mal avancei, que mal quis avançar,
    Que parei e vagueei sempre para cantar os extasiados cantos

  2. Henrique Monteiro diz:

    Whitman. Isto é uma benção num dia que começou tão religiosamente para mim. Sou fanático do Whitman, tanto quanto um tipo do Sporting pode ser fanático do Batimore Orioles. Ou seja, ele é o Pessoa deles, ou melhor diria ser o Pessoa (em muito melhor forma que o Sporting) o nosso Whitman.

  3. Panurgo diz:

    É disso que a América me faz saudades, das livrarias.

  4. curioso (e mocio nado) diz:

    talvez haja aqui demasiada e moção: o mar é lago e o Orioles é baseball (e o Pessoa é o Fernando) 😉

    • Henrique Monteiro diz:

      É disto que falo, quando falo do meu fanatismo: “I am move by the exquisite meanings”

      That music always round me, unceasing, unbeginning, yet long
      untaught I did not hear,
      But now the chorus I hear and am elated,
      A tenor, strong, ascending with power and health, with glad notes of
      daybreak I hear,
      A soprano at intervals sailing buoyantly over the tops of immense waves,
      A transparent base shuddering lusciously under and through the universe,
      The triumphant tutti, the funeral wailings with sweet flutes and
      violins, all these I fill myself with,
      I hear not the volumes of sound merely, I am moved by the exquisite
      meanings,
      I listen to the different voices winding in and out, striving,
      contending with fiery vehemence to excel each other in emotion;
      I do not think the performers know themselves—but now I think
      begin to know them.

      PS – veja lá a tradução deste, Mestre Manuel,

      • curioso (el ectricista) diz:

        há gostos p’ra tudo: encontrei este

        Eu canto o corpo elétrico.
        As legiões daqueles a quem amo me envolvem e são por mim envolvidas,
        Pois não me largarão enquanto eu não for com eles e atendê-los,
        E purificá-los e vigorizá-los inteiramente com o vigor da alma.

        Há quem duvide de que todo aquele que perverte o corpo
        esconde a si mesmo?
        E de que todo aquele que profana os vivos seja tão perverso quanto quem profana os mortos?
        E se o corpo não valer tanto quanto a alma?
        E se o corpo não for a alma, o que será a alma?

        • curioso (aranhista)) diz:

          mais uma, mais modesta? (talvez não)

          Uma Paciente e Silenciosa Aranha – Walt Whitman – Traduzido por Nagib Anderáos Neto

          Uma aranha paciente e silenciosa
          Isolada e ereta num pequeno promontório
          Explorando o vasto vazio ao redor
          Desfiando filamento a filamento para fora de si mesma,
          Desfiando rápida e incansavelmente.

          Oh minha alma desde o teu posto,
          Cercada, isolada na imensidão oceânica do espaço,
          Constantemente pensando, arriscando-te, movimentando-te procurando as esferas para conectá-las,
          Até que a ponte necessária seja formada; até que a flexível âncora fixe,
          Até que a teia que teces te prenda em algum lugar
          Oh minha alma.

  5. EV diz:

    Vasco, que saudades tinha de um postinho… levo anos traduzindo, volta e meia, este poema do Whitman – nunca fiquei satisfeita:

    O you whom i often and silently come where you are that i may
    be with you
    As i walk by your side or sit near, or remain in the same room
    with you
    Little you know the subtle electric fire that for your sake is playing within me

  6. Maria do Céu Brojo diz:

    Rever-me no seu texto foi bom, muito bom.

  7. nanovp diz:

    Saudades, talvez , de invernos brancos com as palavras quentes a sair do livro aberto entre as mãos…e de uma amiga que lia alto Whitman no banco de trás de um antigo oldsmobile, a caminho de Chicago…bela lembrança Vasco…

  8. vgrilo diz:

    Saluti a tutti! Gostei muito do combate rímico entre o Henrique e o nosso Curioso. Um beijo especial à Eugénia de quem não consigo deixar de ter muitas saudades…

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