Meditação Amorosa

Media nocte surgebam ad confitendum tibi

NOCTURNIS VIGILIS – meditações amorosas –
i
Que um grande silêncio desça sobre os sentidos e a respiração se alongue. Que o coração conheça o perfeito batimento e a sombra das pestanas caia sobre o olhar. Que o desprendimento faça ouvir a voz do mundo, o passo do amante se pressinta na distância e todas as chegadas se anunciem à partida. Que o teu nome não cesse de aflorar aos meus lábios.
ii
Em silêncio, em silêncio de escuro segredo, espero-te ó luz.
iii
Que a manhã venha com o nome que lhe deres: a luz dorme num casulo de sombra.
iv
Estrelas caem só para iluminar os corações no escuro.
v
É lenta a travessia da ausência: só o coração aceso ilumina o mar quando escurece.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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14 respostas a Meditação Amorosa

  1. Sabe – já sabe – com a certeza de quem o escreveu, mas quero dizer-lhe que não há leitor que não saiba que o seu verso iii é um extraordinário verso.

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      `Tou aqui, Manuel Fonseca: ouvi tudinho. Sabe do que a minha imodéstia, mas por sua tão grande culpa, se lembrou? Disto, do tio WW. Pronto, a minha literal e mínima contribuição está dada.

      Oh me! Oh life! of the questions of these recurring,
      Of the endless trains of the faithless, of cities fill’d with the foolish,
      Of myself forever reproaching myself, (for who more foolish than I, and who more faithless?)
      Of eyes that vainly crave the light, of the objects mean, of the struggle ever renew’d,
      Of the poor results of all, of the plodding and sordid crowds I see around me,
      Of the empty and useless years of the rest, with the rest me intertwined,
      The question, O me! so sad, recurring—What good amid these, O me, O life?

      Answer.
      That you are here—that life exists and identity,
      That the powerful play goes on, and you may contribute a verse.

      • Mas também sabe que é muito diferente uma explosão discursiva como a de WW e a suavidade de haiku do seu verso iii, não sabe. Et pourtant, O me! so sad, descobrem-se rimas inesperadas…

        • Eugénia de Vasconcellos diz:

          Já estava tão descansadinha do meu verso-contributo, pronta para o dolce lailai niente, e zás! Há em si, o you! so sad, um feitor de escravos entre outras rimas, há pois!

  2. Rita V diz:

    eu gostei do i do ii do iii e do iv
    🙂

  3. A via nocturna não tem regresso:

  4. Inma diz:

    É melhor ler a São joan da Cruz

  5. Maria do Céu Brojo diz:

    A Eugénia já me habituou à beleza desenhada em folha alva. De novo, o caso.

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      Sabe, Céu, tive uma tia, beatorra, nunca conheci, estava lá perto das suas devoções sevilhanas, de nome Rosa Alba – era miúda e no colégio fazia umas redacções trágicas, de cordel, matava às dezenas entre naufrágios e injustas penas de enforcamento que criavam mártires, e um dia inventei uma Rosa Alba que morria de desgosto amoroso e excesso de láudano.

      A minha avó, que não perdia a oportunidade de uma alfinetadazinha à igreja católica, escreveu-lhe e disse-lhe: filha, lamento informar-te, morreste, não sabia que tinhas tido uma vida tão interessante.

      A sua alva folha lembrou-me dela. Tenho de lhe fazer um post. Merci.

  6. nanovp diz:

    Pequeno rasgo de luz silencioso a revelar o amor escondido…

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