Neblina messiânica, salvo seja

 

Fabian PerezFabian Perez

Acordou com a famosa de Honoré de Balzac: “É tão absurdo dizer que um homem não pode amar a mesma mulher toda a vida, quanto dizer que um violinista precisa de diversos violinos para tocar a mesma música.” Nublada pela falta da cafeína, deu-lhe, no todo, razão.

Mais lúcida, problema: o som dum Stradivarius Messias temperado pelo salgueiro, acabado com cinzas vulcânicas na mistela do verniz, lograria o violinista preferir instrumento diferente? E se fabricante de vão de escada o tentasse com violino menos homogéneo, mas, ainda assim, convincente pelo vibrar e radiar do som?

Maguire violino 3                                                                                  Maguire

Conhecida a influência dos séculos idos e frios na dureza das árvores, a madeira extraída hoje amaciou. Menos dureza em proporcionalidade direta com vibração inferior? Extrapolando: humanos de hoje, apesar da longevidade aumentada, menos consistentes na rijeza?

Largou especulações e foi-se ao arrumo doméstico. De soslaio, não voltasse ao mesmo, olhava as madeiras na casa. Negando o propósito, tateou-as. Pareciam resistentes excetuando a mulher – neblina messiânica persistiu em toldá-la.

 

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade. No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria. Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.
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6 respostas a Neblina messiânica, salvo seja

  1. curioso (capela) diz:

    a mulher sente-se fraca. sente-se. a neblina ataca os ossos. a primavera há-de repor a rijeza e a consistência da madeira, de modo a reproduzir a fiel ressonância que o artista sabe reconhecer. o vão de escada, só pela pobreza reinante, será alternativa a melhores aposentos, dignos dos três figurantes, a merecerem fim de carreira condignos e em consonância com o amor à arte.

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Esbarrei na dos três figurantes. Ena tantos! Penalizei-me por não ter completado o texto com o vídeo acima. Pior: conhecia os Violinos Capela duma belíssima reportagem que vi numa «têvê». Obrigada.

  2. curioso (des atinado) diz:

    também poderíamos sentir a dureza em proporcionalidade inversa da frequência ou seja, pela inversa, mais plausível, sentir a frequência na proporcionalidade directa da dureza (menos sensível).

    já custa mais a admitir que o salgueiro tempere ali a velha e refinada qualidade, podendo antes atenuar as dores de cabeça resultantes dos desatinos de vão-de-escada 😉 PEDQ

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Quanto às proporcionalidades o acordo é total. Quanto à ironia também. Estava mesmo a pedi-la! Aproveitou a deixa e deu-me o prazer de sonora gargalhada. Merci bien.

  3. Maria, quem diria que os tecidos moles já tinham chegado à madeira.

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