Nua Nua Nua

No início do século xx, Viena estava apaixonada pela América – bem, Viena e o resto da Europa sonhavam a vapor e progresso em inglês de verso livre. Mas esta cidade quando ama, não é de sentimentos intangíveis, é de amor carnal, e isso faz sentido, o coração é um músculo, assim vê-se na expressão do seu corpo, a arquitectura. Logo, bares americanos, de americanos e de inspiração americana, apareceram aqui e ali. Sobreviveram alguns. Um conheci. Abriu em 1908 e ainda hoje recebe clientes e amigos exactamente por esta ordem: entra-se uma coisa e sai-se a outra, mais sublimada. Há-de ser isto a alquimia.

Leopold tinha então noventa anos, magros e altíssimos, uma bengala que pertencera ao avô ajudava-o a caminhar uma insuspeita diabetes. Esguio. Sobrancelhas finas numa linha bem desenhada seguravam as pálpebras descaídas sobre os olhos tão transparentes que assustariam não se vislumbrasse neles uma clareza de céu. O cabelo todo, branco, cortado curto. Uma feição clássica que o tempo envelhecera muito bem. Só os ombros levemente dobrados – obstinações do esqueleto que a vontade não consegue contrariar. Era o dono do Americano. Café, bar, restaurante, e um belíssimo jardim para dentro, onde só a convite pois era a ponte para o edifício do outro lado, a sua própria casa.

Quem entrasse no Americano depois do jantar, encontraria, invariavelmente, Leopold na primeira mesa junto ao bar, sentado não na cadeira, mas no banco corrido e confortável forrado de cabedal preto que serve mesmo hoje as três mesas dispostas em u – a quarta mesa só tem cadeiras. Mesas pequenas de tampo redondo, estas à frente do bar e de costas para a privacidade da sala de jantar. À sua frente, na cadeira, o maior gato persa que estes olhos já viram ou ouviram contar: um felino de parar os ponteiros de qualquer relógio de espanto: vinte e três quilos proporcionados, elegantes das orelhas às patas, cinzentos de chumbo e safiras nos olhos. Dentes a condizer. Nem se respira.

O meu pai disse-me: o Leopold bebe genebra e o gato também. E eu? Perguntei-lhe. As meninas não bebem genebra. O que é genebra ainda não sei, sei que foi nessa noite que descobri o que era champagne: um vinho fresquinho e gasoso, proibido, menos dessa vez, que fazia uma impressão risonha no nariz, e nariz de gato de persa. E porque tinha tanto medo de gatos, ainda o meu pai: não precisa de ter medo do gato, passada a genebra, salta da cadeira, pula para o banco do balcão e depois para o balcão e dorme ao comprido. E o Leopold? O Leopold convida para um passeio no jardim para ir ver as lindas, a seguir conversa-se na biblioteca. Quem são as lindas? São rosas em rosa escuro, de cheiro  forte como perfume, que foram criadas para uma linda mulher. Ele chama-lhes as lindas. Quem é ela? Também quero rosas minhas.

Chegámos.
– Porte-se muito bem.
Na Viena de então as crianças cumprimentavam os adultos com um gesto desusado, mas gracioso e depois bico calado a menos que fosse outro o mandado. Tudo se passou exactamente como me foi dito que se passaria.

Uma noite de Verão perfeita. E uma noite perfeita. Uma névoa de cigarrilhas. A garrafa de genebra brilhava efeitos coloridos no seu líquido incolor – o meu pai não bebia genebra, soube depois, detestava genebra, preferia o seu whisky, a não ser que a genebra viesse de Leopold. O gato, à mesa, bebeu bem lambida a sua pequenina taça e pata, pata, pata, a reclamar no braço do dono, mais uma. É a última ouviu, Urbino? Urbino ouviu, bebeu e como previsto, saltou da cadeira, pulou para o banco e dormiu no balcão. E eu? Num céu de champagne, estrelado a dourado em bolhinhas de filigrana risonhas no nariz persa. Na pontinha da língua o doce tão fino não chegava a ser doce – e amargo não era. A garrafa preta enfiada no gelo mais que gelada, só para mim, dormia de cheia, coitada.

No jardim, o ar nocturno, mais frio, acentuava as notas mais altas do perfume das lindas: rosas de pétalas pequenas e redondas, intenso rosa em flor.

Já na biblioteca, Leopold diz-me: o pai veio vê-la, já tinha saudades. E aponta a tela solitária, iluminada no escuro da boiserie entre as estantes altas.

Não parecia bela, o nariz grado, os olhos também e mesmo um pouco salientes. À medida que me fui aproximando percebi: desprendia-se dela o mesmo aroma das rosas. Nem era aroma. Perfume de muitas rosas apertadas demais em pouco espaço. Eu parva. O gato sorria.

Isto foi há muitos, muitos anos.

Há uns dias, tive a oportunidade de ir ver a exposição que o Louvre e o Museu do Prado organizaram com os trabalhos de maturidade de Raphael, os do tempo de Roma. Uma coisa bem posta, simples, e confesso, estava ali satisfeita entre a exuberância dos retábulos e a disciplina dos estudos. De repente, uma grande leva de gente acompanhada de guia com microfone, para os auscultadores, é certo, todavia um magote em peregrinação parando diante de cada pintura os dois minutos do passo da via lucis. Fica-se cego com tanta pessoa à frente. Desisto daquela sala, continuo adiante e dou por mim rodeada de Madonnas, porém já tinha o pensamento interrompido: estava perdida de vontade de perguntar ao Vasari de serviço, ao meu lado: oiça lá, então e a Fallen Madonna with the big boobies onde está que não a vejo? Não perguntei, claro, e se o Vasari não tivesse visto o Allô Allô? Farta, finto o Vasari por uns minutos e, desprevenida, volto à direita.

Lá estava ela. A nua mais vestida que há. Tão completamente vestida e tão inteiramente nua. Do penteado bem apanhado, um único caracol solto na testa promete todo o desalinho do cabelo. O corpete sobre a camisa, levemente aberto, tapado com mão sobre o peito, mais aberto se revela, amo-te, vem. O véu que a cobre melhor lhe despe o pescoço, adivinha a nuca, expõe o ombro. Há calor naquela pele. E a contenção do rosto mais exibe o ardor do olhar.

Avanço em direcção à mulher velada. Toda a beleza ali capturada vai além do virtuosismo da técnica. Belamente aprisionados, ali, são o desejo e o desejado. Não lhes resistir. Ir.

No ar nem um traço do aroma da rosa fornarina. A dois passos dela, páro para melhor a ver e sorrio. Eis que do nada, ao meu lado, Urbino, o gato, ri também, de gosto, caninos felinos de fora. Pode ser uma obra maior e ter direito a guia de microfone e turistas de auscultadores: filha da mão de Raphael não é, de Giulio Romano, decerto será. La Velata, a única e verdadeira, está na casa de Leopold, o dono do Americano, o avô rebelde de Rudolf Leopold.

La donna velata

Raphael, Portrait de femme, dit La donna velata, 1512-18

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.

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12 respostas a Nua Nua Nua

  1. De tão nuínha, nuíssima, fiquei eu, a vapor e progresso, a sonhar em inglês de verso livro. Tchin, tchin, Eugénia.

  2. Ivone Costa diz:

    Urbino, o gato que ri, que melhor companhia para sorrir ao ver a donna velata?

  3. Rita V diz:

    … que belíssimo texto querida Eugénia.

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    Quando dizeres prazenteiros, porque muitos, entopem as teclas, fico-me por este.

  5. maria diz:

    Olympia?interrogou-se Manet?Eu cá lembrei-me de Friedrich…E Piero sorriu ao gato que bebia genebra.Tão bom voltar a ler a Eugénia!

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      Ó Maria… que bonita coisa me disse: muito obrigada. Tenho, tenho! de amanhar a Olympia.

  6. nanovp diz:

    Fiquei com inveja do Leopold, primeiro ter um Bar Americano em Viena, depois poder olhar todos os dias a bela donzela…

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      Do Leopold, sim. E do neto? Uma fartura de Schiele, Klimt e o diabo… Malvados!

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