O Amor no Espelho

Na paisagem fria, desumana, de quem anda perdido, uma pequena janela improvisada de um “peep show”. As vidas drenadas de sentimentos, a herança pesada como chumbo. Pouco existe para além das palavras, sussurradas ao telefone de uma casa de passe, perdida na paisagem incógnita de uma subúrbia sem alma.

O vazio de tudo, das vidas que se desencontraram e voltaram a perder-se, das auto estradas e viadutos como sentimentos destroçados, que roçando entre si desaparecem no horizonte indiferenciado da paisagem urbana.

As palavras. Essas falam de amor onde este já nem sequer é concebido ou lembrado, porque foi esquecido. Um amor insuportável que abafa tudo à sua volta, um amor que cega, que arrasta tudo por onde passa. As palavras substituem o encontro, ultrapassam a fronteira de um vidro espelhado que reflecte um só lado, como se o mundo pudesse ter apenas uma face.

Wim Wenders filmou, Sam Shepard escreveu, este grito de desespero e de reencontro num lugar de história imaginada, em Paris, no Texas.

Eu senti como se fosse possível dissecar uma vida num monólogo, olhando o objecto do nosso amor através dum vidro espelhado: “I knew these people, these two people. They were in love with each other.”

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência.

Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra.

Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data.

A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach.

De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro.
A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.

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9 respostas a O Amor no Espelho

  1. Rita V diz:

    … e a banda sonora … do melhor!

  2. Um tipo podia dedicar uma vida a contemplar a Nastassja…

  3. Maracujá diz:

    Se me deixarem pinto os lábios de carmim, cubro as maçãs do rosto com o toque das rosas em forma de pó e passo o rímel ao longo das pestanas, prendo o cabelo, visto sedas e deito-me no chão. O céu cobre-me sossegadamente, suavemente, sem vento, sem agitação e o céu é o espelho em me vejo, em que nos vejo.
    Obrigado caro Bernardo por me fazer sentir assim.

  4. Um dos grandes monólogos. Segue texto um dia destes.

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