O coleccionador de cruzamentos

Tenho um amigo que colecciona cruzamentos. Sempre que vê um cruzamento que gosta, fotografa-o. Em casa tem uma parede onde estão expostos cruzamentos às centenas. Cruzamentos com que se deparou nas suas viagens. No hemisfério norte e no sul, da América à China e pelos caminhos que ligam uma à outra. Alguns são cruzamentos antigos, que ele fotografou de fotografias de cruzamentos. Meta-fotografias, retratos de retratos de indecisões.
“Só fotografo cruzamentos clássicos…”, disse-me ele “…cruzamentos em cruz.”.
“Um cruzamento com três ous” disse-lhe eu que sou mais de coleccionar trocadilhos e metáforas.
Eu também gosto do cruzamento. Gosto da sua bidimensionalidade, neste tempo de unidimensionalidade em que tudo é esquerda ou direita, a favor ou contra, acho não acho. Gosto que haja mais do que um “ou”. Para a esquerda ou para a direita ou para a frente ou para trás. Também gostava que houvesse cruzamentos tridimensionais em que pudéssemos escolher o para cima ou para baixo. Mas bidimensionalidade já não é mau. (Na verdade se ficarmos à espera que um carro nos dê um piparote na direcção do céu ou da terra rapidamente descobrimos o eixo do z).
Gosto de cruzamentos porque são é um sinal de civilização, de educação e livre arbítrio. Perante um cruzamento posso escolher para onde vou e há sempre a regra da prioridade para civilizar os encontros que lá se dão. Se alguém chega da direita faz o favor de passar primeiro. É assim que deve ser, a direita deve passar primeiro porque a direita é mais velha, mais antiga e anda muito mais devagar. Merece por isso alguma deferência que é coisa que nos finge civilizados.
Claro que vir da direita é coisa relativa. Num cruzamento a direita de um é a esquerda de outro (e vice-versa) e é esta a beleza da bidimensionalidade. Quantas vezes à minha direita não aparece a esquerda, lenta, snob e conservadora. É deixá-la passar primeiro. Afinal vem da direita. Mas metaforizo em excesso. Em frente.

O meu amigo que fotografa cruzamentos, fá-lo com um sentimento de urgência quase ecológica. “O cruzamento está ameaçado.” diz ele. “A encruzilhada, esse lugar de indecisão e escolha, está em vias de extinção, substituído pela rotunda que nos conduz pela via única como se fossemos gado.” acrescento eu.
Tudo começou com o semáforo. O semáforo veio estragar o cruzamento. Substituiu a relação com o outro pela relação com a máquina e assim deixamos cair a boa educação. Terá sido um complot da “esquerda” para acabar com a prioridade direita? Interrogo-me fugindo mais uma vez para a metáfora. Esta coisa de pôr um Big Brother a controlar é mais da esquerda, da malta da utopia e da planificação social.
O semáforo foi a primeira machadada no cruzamento mas, apesar de tudo, ainda restava o livre arbítrio. Podíamos, se quiséssemos, ignorar o sinal, passar o vermelho, que foi coisa que sempre se fez quando dava jeito. O pior de tudo foi a rotunda. Ai acabou o cruzamento e a escolha. Numa rotunda somos conduzidos como animais. Detesto rotundas. Uma rotunda torna um cruzamento numa coisa unidimensional, de sentido único. Numa rotunda não se pára para pensar. Mas vivemos na era da rotunda. Acabou o pára, escuta e olha, o simpático sinal de stop e o salamaleque do “passe você que chegou primeiro”. É a andar! Para onde logo se vê. É andar para não atrapalhar.
A colecção de cruzamentos do meu amigo está exposta numa grande parede que ele tem em casa. Eu chamo-lhe o muro da indecisão. É um santuário à indecisão e aos caminhos, um sítio místico onde dá vontade de parar e pensar.
Entretanto também eu vou coleccionando cruzamentos, mas dos outros, dos que se afixam na parede mental.

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

13 respostas a O coleccionador de cruzamentos

  1. O nosso problema hoje, de Portugal, da Europa do sul, é que nos tiraram o cruzamento. Não podemos escolher. A gloriosa rotunda lusitana, imagem de marca da providência municipal, fez-se finalmente poder absoluto. Gostei muito (um dia destes faço um postzinho sobre os cruzamentos no cinema).

  2. V diz:

    as respostas curiosamente encontra-se no eixo do Z, em cima ou em baixo

  3. Fartei-me de gostar. Vou já, macaquinho de imitação, glosar este teu mote, Pedro.

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    A indecisão nos ‘carrefours’ fascina e irrita, se mal sinalizados, quem conduz. Prefiro-os às rotundas esgalhadas à pressa e sem utilidade outra que entupir o em frente. Nem nos semáforos poupam!
    Assemelho-me ao seu amigo por trazer câmara na mala com a mesmíssima indispensabilidade dos lenços de papel.

  5. Pedro Lupi Caetano diz:

    Corrigindo o teu entretanto, vais coleccionando cruza mentes.

  6. marcodias diz:

    Mesmo assim, prefiro encruzilhadas.

  7. nanovp diz:

    Gosto mais dos assimétricos…sem centro….

Os comentários estão fechados.