O Dia da Criação

 

miudos

Aconteceu quase tudo ao mesmo tempo. O meu pai vendeu as últimas propriedades que tinha numa aldeia portuguesa que eu mal sabia que existia e comprou uma pequena vivenda em Luanda. Trocámos a Vila Alice, meu velho bairro de subversivas aventuras adolescentes, por uma vivenda de canteiros ajardinados a toda a volta e um cão.

Eu, só matriculado em Direito em Coimbra, mas por falta de verba frequentando um apoio em Luanda, arranjara, entretanto, um part-time. Tinha 17 anos e o salário era, digamos, robusto. No primeiro mês, de Natal, gastei nos búzios (adorava os búzios do Amazonas) e cerveja que pela primeira vez pude pagar aos amigos mais velhos que até aí pagavam tudo, e com o que não gastei comprei um belíssimo gira-discos que ficou numa varanda semi-fechada onde podia curtir rock ‘n’ roll com som para a rua.

A nova vivenda tinha logo em frente, do outro lado da rua, um musseque. A música chegava lá. Na noite de Natal desse ano, tinha para ouvir outra coisa. Uma preciosidade, um disco que Amália e Vinícius gravaram em casa dela, na rua de São Bento, em Lisboa. Ou seja, eu ouvia em Angola, um encontro de Portugal e Brasil como nunca mais houve. E, nesse disco, de repente, Vinícius dizia o seu “O Dia da Criação”.  Era uma melopeia encantatória. Vinícius dizia um verso e uma plateia portuguesa, com Amália à frente, respondia-lhe.

Neste momento há um casamento” clamava a voz do poeta, “Porque hoje é sábado” diziam os outros convivas. “Há um incesto e uma regata”, quase cantava o brasileiro e logo o fatalista coro português “Porque hoje é sábado”. Já não sei quando, talvez Vinícius estivesse a sair deste seu verso “Há um ariano e uma mulata” ou então deste “Há um grande acréscimo de sífilis” e ao coro português junta-se uma infantil algaraviada africana num portentoso “Porque hoje é sábado”.  O meu disco estava na rua.

Corri as cortinas da varanda e na noite de Luanda, do outro lado do muro, a espreitar entre os canteiros, estava uma dúzia de miúdos. Tinham vindo do musseque em frente. Riam-se com o que dizia o mais velho brasileiro e queriam participar na festa. Ouviram, cantaram e dançaram. Ficou mais Natal, chocolate e picante, o meu Natal de Vinícius e Amália.

Depois, na rua, quando saía de casa, os miúdos vinham a correr e chamavam-me “porque hoje é sábado”. De vez em quando voltavam ao muro e à varanda e pediam, “pões, então, porque hoje é sábado”. Saudavam com gritos e risos sobretudo dois versos. O primeiro “Hoje é sábado, amanhã é domingo”, o outro “Há uma mulher que vira homem”. Não resistiam à tão evidente lógica de um e à esbugalhada surpresa do outro.

Era novo naquela rua. Todos os meus amigos eram de outro bairro. Mal sabia que nessa noite de Natal as palavras de Vinícius, iam ser o princípio de uma bela amizade com um mundo tão diferente que começava do lado de lá da rua, no traço que separava o asfalto da terra vermelha, o tijolo do adobe. Amizade ou estima que não estremeceram quando os dias se tornaram trágicos. Mas isso já é outra história que não cabe aqui contar. Até porque hoje não é sábado.

 

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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14 respostas a O Dia da Criação

  1. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Hoje, a propósito de um texto que hei-de escrever um dia sobre amadíssimo pintor – o diabo do homem dá-me volta à cabeça -, estava a ler sobre a ideia de sprezzatura. Teria poupado tempo… sprezzatura é como este seu Dia da Criação está escrito. Da nostalgia encantatória que traz por junto falamos noutro dia – até porque hoje não é sábado.

    • Spré quê? Isso não é aquela coisa dos castrati, pois não, que põe a voz fininha…

      Bem sei que não, mas é injusto na mesma. Bem gostava, bem procuro, mas estou a milhas de encontrar. Mas foi uma coisa muito bonita de me dizer, isso juro-lhe que foi.

  2. Ivone Costa diz:

    Que bom lê-lo assim, Manuel, menino em África no princípio do mundo.

  3. Vasco (da) Gama diz:

    tempos idos… e ingenuidade, muita ingenuidade (que é o que há de mais fabulosos na juventude). Também eu passei parte da infancia em África (e em Luanda), que, para mim é como um grande sorriso. Depois da saudade, a certa altura jurei que nunca iria voltar. Às vezes encontro alguém que lá vai, ou que lá foi, e eu oiço, o que dizem, mas para mim não estão a falar do mesmo lugar, por muito que insistam que é a mesma rua, ou a mesma praia…

    • VdaG, é um facto, por mais que a geografia pareça quase a mesma, aquele mundo, como direi, esvaneceu-se. Alguma boa ingenuidade terá substituído a daquele tempo, novas malfeitorias atiraram para debaixo do tapete as malfeitorias em que, então, tropeçávamos.

  4. Henrique Monteiro diz:

    Ó maître, isto é a maîtrise

  5. nanovp diz:

    Todos os dias são sábado, todos os amanhãs domingos…

  6. Rita V diz:

    muito ao quadrado

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