o episódio

The sun shone, having no alternative, on the nothing new.” (“Não tendo alternativa, o sol brilhava sobre o nada de novo.”) É esta a primeira frase de “Murphy“, o segundo livro de Samuel Beckett, que 41 editores recusaram, antes que um deles lhe pegasse. Nenhuma  frase é tão determinadamente deprimente. Não sei o que é mais inelutável e fatal, se a resignada aliteração de sun shone se o deseperado pessimismo de tudo ser nothing new.

Bem sei que durante anos se proibiu a associação das obras à sofrida biografia ou desiquilibrada personalidade dos seus autores. Mas lembrei-me de um episódio e fiquei a pensar que só um homem que reage como se vai já ver podia ter escrito aquela frase. Ou então, depois de ter escrito aquela frase talvez já não restasse ao homem que a escreveu outra coisa se não reagir assim.

Saía Beckett de um café, em Paris, com um amigo. Cá fora uma luz ingénua de tão límpida, um inocente céu azul. O amigo, ahhh, encheu o peito de ar, e saiu-lhe com sincera candura: “Num dia como este, é bom estar vivo, não é?” Becket reservou-se, pensativo. Deixou passar a pausa e disse: “Bem , não sei se iria tão longe assim.”

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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20 respostas a o episódio

  1. Henrique Monteiro diz:

    E no fundo, como o Vladimiro e Estragon, estamos à espera desse dia em que valha a pena…

  2. É que o Manuel, diferente do personagem do Vinícius, não desconhece o fato extraordinário de que o operário faz a coisa e a coisa faz o operário. E que se já não cumpre saber se veio primeiro o ovo ou a galinha, biografia ou obra, resta-nos apreciar esses curtas metragens que o Manuel tão bem projeta. Sou mais das que ajeitam a roupa, respiram fundo e apreciam a vista (e a vida) mas, por vezes, queria uma ou outra respostinha assim, mais a la Beckett…

  3. Panurgo diz:

    Um dia feliz, portanto. Ficou-lhe mal não se ter suicidado.

  4. Os escritores a sério são sonsos: sacrificam à escrita até a mãe quanto mais a depressão. São uns garganeiros da frase, é tudo mentira, até a verdade é de letras. O diabo do homem viveu até aos 83 – e tinha humor à fartura, nigérrimo. Alguém vive tanto contrariado? Posto isto: meu rico beckettezinho.

    • fernando canhão diz:

      Hotel Waldhaus
      We had no luck with the weather and the guests at our table were repellent in every respect. They even spoiled Nietzsche for us. Even after they had had a fatal car accident and had been laid out in the church in Sils, we still hated them.

      Thomas Bernhard
      The Voice Imitator
      Translated by Kenneth J. Northcott
      ©1997, 112 pages, 55 halftones
      Cloth $17.95 ISBN: 0-226-04401-7
      Paper $11.00 ISBN: 0-226-04402-5

  5. Não vivia contrariado, não, menina Eugénia, vivia para contrariar.

  6. Esse Beckett não era português?

  7. curioso (ignoro) diz:

    o Sa Muel era…

  8. Maria do Céu Brojo diz:

    Nem eu!

  9. nanovp diz:

    Podia ser um Português pacientemente à espera desse dia , que como Godot, provavelmente poderia nunca chegar …

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