O Fumo de Beccafumi

“O Nascimento da Virgem”, 1540-43

 

Que pesadelos tinha Domenico di Giacomo di Pace?

Domenico Beccafumi, assim chamado pelos bons auspícios do patrono, Lorenzo Beccafumi, era filho de Giacomo di Pace, um camponês de Montaperti, nos arredores de Siena. Nascido em 1486, numa cidade de glórias passadas, era um anão entre gigantes – Michelangelo, Rafael. Maneirista, quando o fogo e a glória ainda apontavam à Renascença romana e fiorentina, não poderia ser mais do que um groupie da banda de traço claro e ideais clássicos, do poder temporal  adulado pelo Tibre, de uma previsível, mesmo que refinadíssima, teleologia. As suas raízes eram medievais, e se os motivos permanecem cristãos, a imagética deve ao mais glorioso obscurantismo.

“Estigma de Santa Catarina”, 1518, pormenor

Como no Diabo, o Domenico está nos detalhes. Ele acompanhou a criação da Capela Sistina, viajou até Roma entre 1510 e 1512, aprendeu com Rafael. Pode tirar-se um homem da Idade Média, mas não se pode tirar a Idade Média do homem. Confrontado com a luz papal, a medida de ouro, o poleiro erótico de Giorgione, o brilho das suas gondolas, o início de Ticiano, o canto posto de Ariosto, Beccafumi regressa à Siena dos triunfos antigos, da doença, dos ciprestes que ainda exalam, exaustos, o fumo da guerra. Quando pensa em Maria – quando dorme acordado – o pintor não reflecte a pulsão da Natureza, ou a eterna esperança de Cristo. Reflecte a morte. Digam lá: esta não é a mais defunta das Natividades?

Reparem nos dedos diabólicos. Nos braços tombados, sem vida.

 

 

A vestal sem mais leito onde lucrar, ao canto direito, tem os mesmos dedos-aranhiço, como um fantasma. As mesmas mãos-esqueleto. Uma anã azul-bebé balbucia na cama, há monstros a escapar do dossel. O pequeno anjo ao lado esquerdo também foge, rosto em cal. A atenção é puxada para o velho e o rapaz sentados ao fundo como tuberculosos, por onde entra a única e pálida luz. E porque repara em nós aquele rosto pré-iluminista, ainda mais à direita? Parece dizer: “Ninguém me vê. Sou eu que vos olho”.

“Santa Lúcia”, Domenico Beccafumi, 1521

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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9 respostas a O Fumo de Beccafumi

  1. Ivone Costa diz:

    É mesmo isso, Pedro: a mais defunta das Natividades.

  2. Henrique Monteiro diz:

    Extraordinário

  3. Este Beccafumi era levado da breca.

  4. Thanks Pedro pela apresentação. E por me teres obrigado a olhar. Parece-me muito moderno, alguém que está ou mais seguro, ou mais à frente. Alucinado. Vou ver mais.

  5. Serviço parco para quem já tanto me apresentou e me obrigou a olhar de novo. Beijinhos, amiga Rita.

  6. nanovp diz:

    Sem palavras, a lembrar o Nosferatu nos dedos esguios e pálidos…não conhecia!

  7. Maria do Céu Brojo diz:

    Fiquei sem fôlego. Um gosto também entope o pensar.

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