O primeiro beijo

O Manuel já aqui falou, e muito bem, de como o cinema beija melhor do que a literatura, e de como se começou a beijar de boca aberta no cinema. Mas o primeiro beijo da história do cinema foi este, de boca bem fechada, que acima se expõe, trocado entre John C. Rice e May Irwin no filme The Kiss, rodado em 1896 por William Heise para o estúdio de Thomas Edison. Apesar da inocência do beijo e a falta de sex-appeal dos protagonistas apelar a tudo menos à inflamação de desejos eróticos, a verdade é que foi aí, também, que, em nome da vigilância da moral e bons costumes, a censura se começou a manifestar na sétima arte. Nos editoriais dos jornais da época, houve mesmo quem pedisse a intervenção da polícia, alegando que o “prolongado pastar nos lábios um do outro já seria difícil de suportar em tamanho real” e que “aumentado para proporções gigantescas se torna absolutamente repugnante” (sic).

Parece que a polícia achou por bem não intervir e, a partir daí, foi um ver-se-te-avias de beijos em tudo o que era lugar público. O beijo público democratizou-se e, de último reduto da intimidade da vida privada ou nem isso, passou a sinal de afirmação de modernidade. Sabe-se hoje que os que mais se distinguiam na beijoquice em público eram os que menos a praticavam em privado. E ignoravam de todo o que era beijar bem – pouco importava se beijavam bem ou mal e o efeito que provocavam ou não no parceiro, o que interessava, sim, era mostrar ao mundo que o faziam.

Decorrido mais de um século, escusado será dizer que muita coisa mudou na matéria. Basta percorrer os lugares públicos da cidade – esplanadas, jardins, cafés, bares, restaurantes, ou o meio de qualquer rua ou praça – para concluir que o beijo caiu em completo desuso. No que toca a beijos, pouca diferença parece haver entre os nossos lugares e aqueles – no Irão, na Arábia Saudita ou em todos em que a sharia seja lei – onde as manifestações de afecto estão vedadas às mulheres em público. Ninguém beija em lado nenhum à vista de olhares de terceiros. E quando beija logo se apontam os dedos acusadores. Pudor? Conservadorismo? Não deixa de ser estranho que isso se passe – e passa – numa sociedade onde muitos expõem publicamente todas e quaisquer intimidades nos facebooks da vida.

Talvez se assista ao fenómeno contrário daquele a que o primeiro beijo de Rice e Irwin deu azo. Talvez já ninguém precise de afirmar o que quer que seja através do beijo em público. Talvez se beije muito e bem em privado, ao contrário daqueles tempos. Ou talvez haja mesmo um défice de beijos, em público e em privado. Bom, mas o mais avisado mesmo é pensar que isto é tudo impressão minha, e uma falsa impressão minha. Ou que, impressão minha ou não, eu não tenho nada a ver com a vida alheia.

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.

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10 respostas a O primeiro beijo

  1. um bocadinho admirada de não te teres lembrado daquele beijo, sabes?
    o que transforma o príncipe em sapo!
    ah ah ah

  2. Maria do Céu Brojo diz:

    Apetece alteração: “O cinema a beijar a literatura”? Gosto disto.

    • Diogo Leote diz:

      Maria, uma coisa é certa: em 1896, a avaliar pelo exemplo lá de cima, a literatura beijava bem melhor do que o cinema. Mas, também, ainda não havia Garbo.

  3. Caro Panurgo, só não percebi bem o que é que consola verdadeiramente: se o beijinho da menina virado para a outra se o rabinho da dita virado para nós.

  4. É verdade, Diogo. Agora percebo Porque é que os bancos de jardim estão carregados de pó e porque reparei em dois ou três beijos puxados à sombra de um centro comercial ou em escadas rolantes do metro.

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