O tempo a descer

Depois dos 40, rapaz, o tempo é a descer. O meu avô António Maria chamou-me rapaz até morrer e estou certo de que assim me chamaria hoje, caso vivesse até aos 115, idade que agora teria.

Depois dos meus 40, nunca o vi, para lhe dizer que tinha razão. Que o tempo é a descer, que nunca mais nos impacientamos por tardar o dia do nosso aniversário, por tardar o fim do ano, o Carnaval ou o Natal. É a descer, e bem a descer, é íngreme e vertiginoso, é um tempo que nos surge só de vez em quando, apenas para não nos deixar esquecer a direção que tomámos, a mais  desconhecida e oculta direção da qual nada nos desviará.

O tempo encurta-se, curva-se, como nas singularidades da física. Os filhos crescem, os filhos têm filhos, os netos andam, os netos falam, os netos vão à escola e nós cá dentro somos sempre o rapaz a quem o avô dava conselhos; bons e prudentes conselhos apesar de ele ter sido semi-anarquista na juventude, reviralhista na maturidade, desobediente por natureza e continuar lá dentro, lá bem dentro dele, a ser também o rapaz a quem o seu avô deu bons e prudentes conselhos.

Será isto não perder o sonho? Será isto manter a pureza originária? Será isto lamechice, aquela lamechice detestável que nos ataca aos domingos pela tarde, a altura da semana que mais se assemelha à velhice?

Será assim toda a gente? Ou apenas quem sabe – como dizia Brel na Chanson des Vieux Amants – que é preciso talento para ser velho sem ser adulto?

De qualquer modo o tempo desce em mim. Não quero que seja  Natal outra vez porque jamais terei o Natal que tive quando o tempo subia e só a custo por ele se passava.

Apenas ouço o tic-tac do relógio. Deste relógio, e quando o ouço sei que é assim. Não me deprimo porque é inelutável. Não me revolto, porque é a natureza. Apenas sei, como o meu avô me ensinou, que o tempo agora é a descer.

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
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25 respostas a O tempo a descer

  1. Que belo, Henrique!!! Mas tu és dos meus preferidos, estás entre os meus escritores preferidos. Eu sei, exactamente, o que tu sabes e o que tu sentes. Não por teres escrito este belo texto mas porque te reconheço por detrás de um corpo e de um espírito inalcançáveis, porque te reconheço de um outro modo muito distinto daquele que estamos todos habituados a ver-te e a ouvir-te no dia a dia. Há um outro tu deslumbrante, inimaginável, sempre em fogo, que eu tenho a felicidade de conhecer.e mais, de reconhecer.

    Beijos

    Cristina Carvalho

  2. Fernanda Silva diz:

    Belíssimo, Henrique! os meus 68 agradecem.

  3. Vasco (da) Gama diz:

    Eu gostava muito de lhe dar uma opinião, é que sou muito opinativo e para além do mais faz muitas perguntas (principalmente das retóricas), mas vou conter-me, não é por nada, nem por respeito, apenas por ser absolutamente desnecessário. De qualquer modo sempre gostava de lhe dizer que não deve ligar muito ao que diz o Brell, por muito que aprecie as suas canções. O único talento que cada um precisa é o de ser como é (que vida é difícil e veio sem manual de instruções). E eu tanto quanto consigo perceber nenhum homem se torna num verdadeiro adulto (talvez isso seja possível para as mulheres). Para além do mais, que posso eu acrescentar, ah, não gostei da sua crónica sobre a RTP, mas isso não é para aqui chamado (cá para mim o verdadeiro serviço público seria fecharem de vez a RTP, que não me faz nenhuma falta, mas talvez faça falta a outros, quem sabe, bolas aqui está a minha veia opinativa, pelos vistos não desapareceu).

  4. Manuela Correia diz:

    Não partilho da sua opinião, talvez porque hoje, apesar do tempo cinzento, não estou triste. Comecei a libertar-me a partir dos 40, e hoje com 55, vejo o mundo de uma forma mais nítida, mais serena. Entendo-me melhor e entendo melhor os outros. Tenho menos ilusões, sofro menos. Não tenho muitos talentos e talvez não chegue a adulta, mas não quereria voltar à infância tal como ela foi. O Henrique não é lamecha, é sensível ao tempo que vivemos. Continue assim. Eu gosto.

    • Vasco (da) Gama diz:

      o Henrique não é lamecha? esta é boa

      • Vasco (da) Gama diz:

        não consigo emendar o post. Não sei se o Henrique é particularmente lamecha, pelo que leio parece-me que é um pouco (quiçá pela lamechisse que se agarra aos homens lá pelos quarentas, quem sabe…), mas estava a brincar (humor norueguês).

        • Henrique Monteiro diz:

          Está devidamente autorizado a chamar-me lamechas. E a pensar em homens de 40 anos (humor malaio)… A sério, amanhã devo estar diferente, por cada um é muita gente

  5. Ivone Costa diz:

    😉 Bien sur, nous eûmes des orages.

  6. Rita V diz:

    tic-tac, saiam da frente depressa, depressinha
    quem sabe se não chego lá mais depressa
    tic-tac …

  7. Luís Quintino diz:

    No dia em que passam 5 anos sobre a morte que mais me matou, a de minha Mae, este texto provoca, na inversa, a sensação que tínhamos aos 17 anos, quando julgávamos poder resolver o Mundo. Bom texto, grande sensibilidade, grande oportunidade de domingo fim de tarde

  8. curioso (subindo) diz:

    entende-se que a descer, mais depressa que a subir, é o modo como sentimos o aproximar do fim, do indesejado. mas não me parece que o tempo desça em nós, até pelas marcas que nos deixa. sobe. chega ao topo e depois até paira sobre nós, definitivamente caídos, enterrados. e o nosso tempo evaporado, no infinito. sem fim. nascemos e o tempo vai subindo em nós, acelerando muito mais, sempre mais, na etapa final. e não seremos adultos enquanto sentirmos que estamos ainda a crescer, a deixar que o tempo amadureça as fraquezas que nos restem. uma velhina bem adulta dizia: já só estou à espera que o Pai me chame. triste lamechice.

  9. Vasco (da) Gama diz:

    Eu aborrece-me tanta gente a falar do envelhecimento e da morte, neste tom de triste queixume. Isto não é triste, é deprimente. Uma pessoa considerar-se velha é um absurdo de todo o tamanho. E só faz sentido se alguém precisar de um lugar sentado e estiver farto de estar em pé, aí sim é decente fazer um ar miserável, abanar alguém mais jovem e exigir o lugar.

    Cada um de nós só tem um referencial que é “a nossa própria pessoa”, porque carga de água é que eu hei de tomar para mim o referencial do meu filho, ou de quem quer que seja. Ninguém é velho, os outros é que são novos, inocentes e inexperientes (e tontos, claro está) e depois há sempre uns quantos que são mais velhos que nós e esses é que são os velhos.

    Eu bem vejo que o sensível (e não lamecha como alguns insinuam) Henrique é que começou com esta história.

    • Henrique Monteiro diz:

      O pior de tudo é não saber envelhecer

      • Vasco (da) Gama diz:

        Gostava de saber o que esse lugar comum quer dizer, é como o tal “saber viver”. Todos vivem e envelhecem (e fazem-no o melhor que podem). Quem é que sabe “viver” ou “envelhecer” (se vivermos e envelhecermos já não é mau)? É quem se conforma com isso, quem não pensa nisso, quem vive como se não houvesse outro dia, quem vive como pensa que vivem os mais velhos ou os mais novos, ou quem vive satisfeito com a sua condição (seja ela qual for).

        Aqui, há um caso peculiar que corresponde àqueles que dizem (referindo-se a eles ou outros a que tolamente queiram ter uma espécie de “amabilidade”) que são jovens por dentro. Como se isso significasse alguma coisa (será quanto muito uma pretensão tola e vazia ou um carinho simpático, nada mais).

        • Henrique Monteiro diz:

          Não é preciso tanto… Não saber envelhecer é querer apanhar um eléctrico em andamento com a juventude de espírito, ou pensar que temos menos 10 anos se andarmos de calções. Just it.

  10. Maria do Céu Brojo diz:

    De tanta harmonia com o escrito resta-me economizar palavras e fruir emoções. Garanto que teclas embargadas não constituem mal que me assedie muitas vezes.

    • Henrique Monteiro diz:

      Minha boa amiga, muito obrigado. Não que eu pretenda embargar-lhe as teclas, mas é bom saber que outros veem a vida como nós a vemos

  11. nanovp diz:

    O descer pode não ser necessáriamente mau, digo eu…

  12. Vasco (da) Gama diz:

    Há uma parte do envelhecer que todos experimentamos e que é inquietante, que tem a ver com a aproximação da morte e, embora a experiência pessoal varie, normalmente cada passa pela experiência de, depois de durante muito tempo da vida a “morte” em si é algo ausente, mas a patir de certa altura temo-nos de ver os nossos antepassados morrer e isso custa-nos, em particular quando se tratam dos nossos pais, e inquieta-nos, porque provavelmente aí temos a noção (real) que vamos passar por um precurso semelhante, ou olhamos para essa decadência e torna-se fácil imaginar que aquela vai ser a nossa realidade, e isso é assustador, pelo menos para nós que estamos a ter um primeiro vislumbre da coisa, mas eu creio que o tempo acabamos por nos aproximar do fim com muito mais tranquilidade, do que poderíamos esperar, pelo menos é o que consigo observar (mas claro que situações mais dolorosas e sem essa tranquilidade), é claro que, quem, ainda está longe o assunto parece naturalmente inquietante.

  13. Mas não eras tu, Henrique, que querias que as ruas fossem todas a descer?

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