Os costumes, poema da noite de Natal

 

Deixo sobre a mesa

os pratos que esperam

a passagem das almas

dos mortos que habitam as casas que amaram.

 

Mas e as casas novas,

que almas as querem na sua nudez de memórias?

 

Deixo sobre a mesa

o vinho velho e o doce que adormece

na taça aborrecida.

Deixo sobre a mesa

os traços marcescíveis destes dias

até que almas curiosas se detenham,

chamadas a esta atávica hospitalidade,

e pelas estradas da minha noite

passem os santos que matam dragões

nos quadros de Uccello.

 

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.
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6 respostas a Os costumes, poema da noite de Natal

  1. Henrique Monteiro diz:

    O seu poema desenterrou em mim uma coisa muito antiga sobre a comida que se deixava às almas. A minha avó falava disso. Fiquei contente por recordar. Bom Natal, com ou sem almas, mas com ânimo.

  2. Por falar disso, a taparmos os doces, alguns salgados, ontem, na mesa de meia-noite, alguém disse que têm de se deixar destapados por causa das almas que viriam pela madrugada. Alguém terá lido antes o poema da Ivoine, estou certo…

    • Ivone Costa diz:

      Pois, Manuel, acredito que sim. É preciso fazer alguma coisa pelas almas. Nem que seja escrever.

  3. nanovp diz:

    O Natal é também o encontro das almas, o seu poema ajuda à preparação Ivone…Boas Festas

  4. Ivone Costa diz:

    Boas Festas, Bernardo.

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