Os Meus Melhores Filmes de 2012

“Margaret”, de Kenneth Lonergan

 1 – “Margaret”, de Kenneth Lonergan, EUA

 Lia Cohen (Anna Paquin, extraordinária), uma adolescente nova-iorquina, quase destrói a vida numa incansável batalha ética pelas suas convicções – e pelos princípios básicos da decência – após um acidente de autocarro que provoca a morte de uma mulher. De uma maturidade quase sem paralelo no cinema americano dos últimos 30 anos, é a segunda longa-metragem de Lonergan (“You Can Count on Me”) e estreou há um ano em duas salas nos EUA após uma longa batalha artística e legal. Permanece – permanecerá? – inédito em Portugal. A versão longa, de 3 horas e 6 minutos é, simplesmente, uma obra-prima.

 DVD espanhol, Região 2; Blu-Ray e DVD de Região 1 (inclui a versão longa e a distribuída de forma quase confidencial nas salas dos EUA)

2 – “Appolonide, Souvenirs de la Maison Close”, de Bertrand Bonello, França

 As angústias, confidências, segredos, pequenos triunfos, grandes tristezas, paisagens mentais, problemas logísticos, doenças, clausuras e – sim – odores de um bordel parisiense no final do século XIX. Discretamente desesperado, é um retrato honesto e minucioso da prostituição por um dos poucos “autores” franceses do momento.

 DVD nacional

3 – “The Muppets”, de James Bobin, EUA

 Não há nada mais irresistível nas salas de cinema de 2012 do que o cozinheiro sueco, as galinhas, o Animal e Miss Piggy a cantarem o “Smells Like Teen Spirit” dos Nirvana. Jim Henson teria gostado desta centésima – e, finalmente, hilariante – ressurreição.

 DVD e Blu-Ray nacional

4 – “War Horse”, de Steven Spielberg, EUA

 Outro “guilty pleasure”: Spielberg rouba Griffith, surripia Borzage, imita Raoul Walsh, faz de Victor Fleming e George Cukor em “E Tudo o Vento Levou”, relembra as melhores lições de Ford e consegue pôr o mais granítico dos camionistas a chorar baba e ranho num clímax mais clássico do que os clássicos da MGM nos anos 30.

 Blu-Ray nacional

5 – “Shame”, de Steve McQueen, Inglaterra

A anatomia de um vício – o sexo – pelo mais brilhante dos novos realizadores europeus, o artista plástico Steve McQueen, e pelo mais brilhante dos novos actores europeus, o mind fucker Michael Fassbender. Não é “Hunger”, mas não fica muito longe.

 DVD nacional

6 – “The Trip”, de Michael Winterbottom, Inglaterra

 Uma improbabilíssima aliança – Gastronomia e o Reino Unido – numa comédia on the road de um “understatement” corrosivo.

 DVD inglês, Região 2

7 – “The Grey”, de Joe Carnahan, EUA

O grande filme de acção do ano e o regresso de um cineasta promissor (Joe Carnahan, cuja primeira obra, “Narc”, era a fita mais William Friedkin dos anos 2000), quase devorado pela indústria. Entre o niilismo e a tragédia, “The Grey” nunca dá aos espectadores o que eles querem. Apenas mais angústia, e mais vigília.

 DVD nacional

 

8 – “Holy Motors”, de Leos Carax, França

 Uma tripe, tipicamente Carax – basta ter visto “Les Amants du Pont Neuf”, de que este “Holy Motors” parece ser um remake tecnológico. Uma ópera bufa, um videoclip à Matthew Barney, um flirt urbano infectado pela leitura febril de Rimbaud e William Blake. Uma pedra.

 Nas salas

 

9 – “Amour”, de Michael Haneke, Áustria

 Um dos mais lúcidos, serenos e terríveis poemas de amor da história do cinema.

 Nas salas

10 – “Marina Abramovic; The Artist is Present”, de Matthew Akers, EUA

 Uma performer polémica, um documentário que a procura olhar sem juízos de valor. Vale a pena só para seguir a exposição viva/performance imóvel de Abramovic durante três meses no Moma.

 DVD de edição inglesa, Região 2

11 – “The Queen of Versailles”, de Lauren Greenfield, EUA

 O melhor documentário de 2012 sobre as ondas de choque do furacão sub-prime sem jamais o mencionar. É uma espécie de mini-reality show do Inferno, estoicamente atravessado por Jackie Siegel, uma antiga miss Texas casada com o maior empresário mundial de time-sharing. As visitas à réplica do palácio de Versalhes construído nas margens de um lago da Flórida, que serviria de lar à família Siegel antes de o magnata perder quase tudo na crise do mercado imobiliário, provoca daqueles risos incomodativos que não se apaziguam com facilidade.

 DVD de Região 1

12 – “We Need to Talk About Kevin”, de Lynne Ramsay, Escócia

 Se o “Elephant” de Gus van Sant é a Polaroid da “banalidade do Mal”, esta é a canção pop/rock. Para ver em sessão dupla, com o “Elephant” de Alan Clarke no intervalo. Inclui a extraterrestre Tilda Swinton e uma das revelações dos últimos anos, o arrepiante Ezra Miller, de “Afterschool”.

 DVD nacional

13 – “Take Shelter”, de Jeff Nichols, EUA

 A escalada da esquizofrenia de outro extraterrestre, Michael Shannon, ao tentra proteger a família de um fim do mundo que talvez não exista. Um apocalipse interior, pelo talentoso Nichols.

 DVD nacional

14 – “Nana”, de Valérie Massadian, França

 Um conto de fadas duro e ultra-realista, quase mudo, que adopta o mais improvável dos pontos de vista, o de uma menina de 3 anos. Não é “Mouchette” de Bresson, é melhor.

15 – “Cosmopolis”, de David Cronenberg, Canadá

 Diálogos de uma cerebralidade assassina, um cinismo reptilíneo e o homem-máquina cronenberguiano. Já não é a telepatia de “Scanners”, o parasita sexual de “Rabid”, o monstro neurológico de “The Brood”, as próteses e os pistões de “Crash”, o videogravador de “Videodrome”, o implante do videojogo em “eXistenZ”. Agora é um portátil e uma folha de cálculo. Para ver com um whisky de 50 anos numa mão e uma cópia de “O Cisne Negro” de Nassim Nicholas Taleb na outra.

 DVD nacional (Blu-Ray nacional a 20 Dezembro)

 

16 – “Hors Satan”, de Bruno Dumont, França

O cinema falsamente apóstata de Dumont, um dos poucos franceses interessados nos dilemas da espiritualidade sem “épater le bourgeois”.

17 – “Oslo, 31 August”, de Joachim Trier, Noruega

 O mais belo filme deprimente do ano. Como se, de súbito, tivéssemos descoberto que o mestre Antonioni se cruzara com uma neta maníaco-depressiva de Frank Capra para terem um filho na Escandinávia. E com o Godard de 1959-65 a rodar o filme de casamento.

 DVD inglês, Região 2

 

18 – “Looper”, de Rian Johnson, EUA

 Contra os talibans que gostariam de extirpar os géneros do cinema, contra os escanções que consideram “ficção científica inteligente” um oximoro, “Looper” mostra pela enésima vez que algumas das melhores ideias da literatura e do cinema contemporâneos brilham sob a capa do género e os desafios do futuro. Uma provocação: é o melhor filme de M. Night Shyamalan que este nunca realizou.

 nas salas

19 – “007 – Skyfall”, de Sam Mendes, Inglaterra

 É tão intimista e melancólico que parece escrito pelas irmãs Bronte. Com um vilão cheio de complexos de Electra, coloca Bond no mundo dos humanos, de onde nunca mais poderá sair.

 nas salas

20 – “Sinister”, de Scott Derrickson, EUA

 Ainda não percebi se, em termos artísticos, “Sinister” é uma tremenda aldrabice ou um triunfo digno de John Carpenter – por vezes, faz lembrar “Cigarette Burns”. Mas que mete medo ao susto, mete.

 nas salas

21 – “Sleeping Beauty”, de Julia Leigh, Austrália

 Lucy, uma jovem estudante universitária (Emily Browning, rosto e corpo de criança e uma perversão indizível), resolve aceitar um emprego como acompanhante de luxo para pagar as contas. Movida pela preguiça – trabalhar dá muito trabalho -, cedo descobre que as suas funções se limitam a adormecer ao lado de homens ricos de meia-idade. Eles não a podem penetrar. Mas podem fazer-lhe tudo o mais que lhes apeteça. Numa atmosfera mortuária, cuidadosamente planeada, “Sleeping Beauty” é uma revelação.

 DVD inglês, Região 2

 

22 – “Elena”, de Andrey Zvyagintsev, Rússia

Um melodrama digno de Kubrick. Gelado como a tundra.

 DVD nacional

23 – “Sound of My Voice”, de Zal Batmanglij, EUA

 Uma rapariga jura vir do futuro, criando um culto religioso e gerando um pequeno grupo de seguidores fanáticos. Quanto mais uma dupla de jornalistas penetra no seu mundo e a tenta desmascarar, mais é sugado pelo seu fascínio. Depois de “Another Earth”, um novo passo no percurso obrigatório da actriz e argumentista Brit Marling.

 Blu-Ray inglês, Região 0

24 – “The Newsroom”, de Aaron Sorkin, EUA (Série TV)

 Supra-egocêntrico, ideologicamente transviado – parece por vezes um tempo de antena da ala mais à esquerda do partido Democrata -, de um romantismo ora insípido, ora démodé, é um prodígio de escrita, com o selo de génio de Sorkin – os diálogos. Para ver e chorar (de inveja) por mais.

25 – “Homeland”, de Howard Gordon e Alex Gansa, EUA (Série TV)

 À segunda temporada, Gordon e Gansa acertam em cheio, oferecendo-nos the belly of the beast. Deliciosamente maniqueísta, é uma viagem de comboio-fantasma ao cérebro de um herói norte-americano desaparecido no Afeganistão que é também um terrorista islâmico disposto a tudo para concretizar a jihad no país natal. Ao mesmo tempo, revela-se um patriota. E um pai extremoso. E um psicopata. E o único tipo sensível numa ficção consumida por uma imensa teia de poder. A agente que o persegue também não bate bem da bola. Apesar de tudo isto, “Homeland” não falha uma nota.

 em exibição no canal Fox

26 – “The Hour”, de Abi Morgan, Inglaterra (Série TV)

 Morgan escreveu “Shame” a meias com Steve McQueen (e assinou também o guião do insuportável “The Iron Lady”, com Meryl Streep como Margaret Thatcher, mas vamos fingir que isso não aconteceu). Trata-se de uma elegantíssima viagem pela espionagem britânica e pelo nascimento dos media audiovisuais no Reino Unido, durante a crise do canal do Panamá. “Ficção histórica de qualidade”? É isto.

DVD inglês, Região 2; estreia no canal Fox Life a 19 Dezembro

 

 27 – “Nostalgia de la Luz”, de Patricio Guzmán, Chile

 Digamos que é o melhor filme de sempre a juntar as vítimas do regime de Pinochet e a busca das origens da vida através de um radiotelescópio. Prova que, para sermos surpreendidos por imagens, o melhor sítio a procurar nestes dias é a América Latina – é favor verem o lindíssimo “Stellet Licht”, de Carlos Reygadas, sobre uma comunidade menonita no México.

 DVD inglês, Região 2

 

28 – “The Deep Blue Sea”, de Terence Davies, Inglaterra

 Um dos maiores realizadores vivos, e um dos mais desconhecidos, coloca a sua marca pessoalíssima, ungida pela memória, a música e uma sofrida nostalgia, nesta adaptação da peça de Terence Rattigan sobre o sofrimento de uma mulher casada com um juiz e apaixonada por um piloto da RAF, na Londres de finais dos anos 40. Rachel Weisz é tão sublime na sua dor que faz lembrar Ingrid Bergman, e os primeiros dez minutos são de uma beleza de cortar a respiração.

 Blu-Ray inglês, Região 2

 

 

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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8 respostas a Os Meus Melhores Filmes de 2012

  1. Filmes haverá que não entrarão em playlists:

  2. curioso (nenhum) diz:

    para estes serem os melhores, quantos viu/avaliou? é obra!

  3. overwhelming, dear Peter

  4. Pedro Bidarra diz:

    Obrigado Pedro pelo atalho. Já imprimi e afixei na parede. Agora é por “vistos”

  5. Maria do Céu Brojo diz:

    Mais do que espantada, estou assarapantada. Junte ao que eu presumia e conclua o caos do meu entendimento.

  6. Muito obrigado pela generosidade da partilha, Pedro. Estou cada vez mais um ignorante cinéfilo (quanto à televisão, nem se fala): dos 28 títulos que apresentas, só vi 7. Mas, com excepção do meu ódio de estimação Spielberg, vou fazer tudo para não deixar nenhum de fora.

  7. Panurgo, o “We Are Legion…” também surge em algumas listas, digamos, mais subversivas. Curioso, se soubesse a quantidade de parvoíces e barbaridades que tenho de ver por obrigação profissional…de vez em quando, lá aparece alguma coisa que vale a pena. Companheiros, espero que alguma destas sugestões vos traga prazer.

  8. nanovp diz:

    Já estava com saudades da lista, um certo barómetro que orienta a escolha quando se sente a impossibilidade de se ver mais, muito mais cinema. E esperemos que também te tenha dado algum prazer Pedro!

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