Para agradecer muito por 2012

A 26 de Novembro, a poucos dias do meu aniversário, estava a pensar nisto de falhar a vida quando percebi, de repente, o quão afortunada tinha sido de a ter falhado: tão bom, merci Vida.

ÁMEN
– Falhámos a vida, menino!
– Creio que sim… Mas todo o mundo mais ou menos a falha. Isto é, falha-se sempre na realidade aquela vida que se planeou com a imaginação. Diz-se: “vou ser assim, porque a beleza está em ser assim”. E nunca se é assim, é-se invariavelmente assado, como dizia o pobre marquês. Às vezes melhor, mas sempre diferente.

Há já vários dias que ando com este fim de Os Maias, entre Carlos e Ega, no pensamento. Ando com isto na ponta da língua e agora na ponta dos dedos. Para dizer que me tem ocorrido que falhar a vida talvez seja tão bom quanto acertá-la. Não poderei verificá-lo jamais porque só a falhei, mas, e este despojamento que advém de a ter falhado, de a ter falhado a sério, não àquela décalage entre a ideia de vida na juventude e a na maturidade, não: tudo muito bem falhado, à grande e à francesa e no grande como no pequeno, no amor e na profissão, no ser como no ter. Que alívio. Pronto, falhei, está falhado. Tão bom o despojamento de sonhos, de objectivos, de planos. Deus! a estas pequeníssimas e ilusórias liberdades de céu aberto, claro horizonte para qualquer norte, não sei se há acerto que lhes chegue aos calcanhares. Pois claro, sou muito erro, o mais certo é isto estar errado – se estiver, que sorte, amanhã posso experimentar pensar outra coisa qualquer…

Há, é evidente, o tempo ácido da frustração. Depois é uma porta que se abre.

Haverá alguma coisa mais receptiva do que um mariano “assim seja”? Irresponsável como uma criança na mão dos pais, estar-se nas mãos da vida. Assim seja.

A vida conduz, aliás sempre conduziu, porém, de não irmos de mãos no volante, não há tensão nos ombros e sempre se poupa no osteopata.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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16 respostas a Para agradecer muito por 2012

  1. Ivone Costa diz:

    Amen. E, depois de sermos de tristes tão queirosianos, é ser como o seu querido Becket e falhar melhor da próxima vez. Se corrermos, será que ainda apanhamos o eléctrico?

  2. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Perdêmo-lo, mas sempre ficamos coradinhas e divertidas da corrida… Bonne Année, Ivone.

  3. António Barreto* diz:

    Que o falhanço não hipoteque êxitos futuros.

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      O Leonard Cohen esteve num mosteiro uns anos. Se calhar foram meses. Coisa Zen – a antinomia, suponho, do Chelsea Hotel, há que conhecer os dois rostos da mesma coisa. Derivo.

      O Leonard Cohen esteve num mosteiro uns anos. Coisa Zen. Contou isto que lá ouviu: era uma vila tão pobre… todos eram fundamentais nos campos para não se morrer de fome. O filho do mais pobre dos habitantes perdeu um braço num acidente e ainda mais miserável ficou a sua família, já que em pouco auxiliava o pai na lavoura. Sobreveio uma guerra e todos os jovens foram arregimentados. Ele não, pois não tinha braço. Todos morreram. Ele não. Acabou por adquirir mais terras e ter assalariados. Mas foi expropriado quando o irmão do imperador, com o acordo deste, decidiu fazer uma estrada que ligava o norte ao sul do país. O mesmo imperador que foi envenenado pelo seu próprio irmão.

  4. Diogo Leote diz:

    Menina Eugénia, do seu texto retiro duas conclusões: uma, não tem idade para falhar a vida, muito pelo contrário, esta está bem à sua frente, para fazer dela o que quiser; duas, e como consequência da primeira, se alguma coisa falhou foi e é nessa coisa estapafúrdia de dizer que falhou a vida. Olhe, sabe que mais, sorte a nossa de não a termos falhado – a si, não à vida. Bom ano, menina bonita.

  5. Ia jurar que falhar a vida é um privilégio de quem a a sabe viver dramática, literária, tragicamente. Se é para despojamentos de sonhos, objectivos e planos, quem é que não gostaria de falhar a vida…

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      Nem dramatismos nem tragédias fora das lindas páginas, Manuel Fonseca, pelos deuses! Olhe, sou como o outro, já sei que i am not young enough to know everything, mas lucidez, tenho.

  6. nanovp diz:

    Falhar faz parte da vida…há que dar graças e combater a frustação…

  7. ERA UMA VEZ diz:

    Comentar eu???
    Como? se acho que “escrever é fantástico e maravilhoso”???????

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      Comente. Escrever será fantástico e maravilhoso como diz. E Escrever é Triste. Porque se excluiria mutuamente o que se pode incluir?

  8. Pedro Bidarra diz:

    No “Hitch Hiker’s Guide To The Galaxy”, a grande triologia em cinco volume, de Douglas Adams, sobre a vida o universo e tudo o mais, há um episódio, que cito de cor, em que Arthur Dent tem de se lançar de um penhasco e é obrigado a voar para não morrer. Não sabendo como perguntou e alguém lhe diz que é fácil, é só falhar o chão. E Arthur falha o chão quando, mesmo antes de se estatelar, passa, esvoçante, uma toalha de praia que tinha perdido uns universos atrás. Arthur distraiu-se com a toalha, falhou o chão e voou.
    Falhar a vida é como falhar o chão. É porque se distraiu. Vai a ver-se e está mas é a voar.

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      À partida, acredito em todas as triologias em cinco volumes. Se vir uma toalha amarela, é minha, empresto-lha para agradecer o voo.

  9. Maria do Céu Brojo diz:

    Ai que me tocou no autor e na obra meu ponto fraco!
    Obrigadinha vem a propósito neste povo de «inhos» e «inhas».

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      Ponto fraco mais forte que sei lá… E como não, Céu, se o raio do homem inaugurou o português que hoje falamos? Viva o nosso querido Eça! VIVA!

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