Paulo Rocha

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Se, por vezes, o romanesco incarna, e incarna, em pessoas reais, Paulo Rocha era uma dessas vivíssimas representações, figura proustiana que caminhava pelas ruas de Lisboa. Podíamos encontrá-lo no seu hotel, o Impala, em terrenos que a mãe vigiava como um dragão, ou à porta da Cinemateca, a meia-noite a afastar-se, numa maravilhosa algaraviada de zombie cinéfilo, música nocturna encantatória, combinando a gramática do cinema com a utopia tecnológica e uma sentimentalidade faca alguidar e cantiga de amigo.

 Vi-lhe os filmes todos até ao “Desejado” e o João Bénard deixou que fossem minhas as “folhas” da Cinemateca que lhe apresentaram os filmes fundadores do Cinema Novo, “Verdes Anos” e “Mudar de Vida”, até mesmo a que apresentou a “curta” em que, “Pousada das Chagas”, anunciava o triunfo da câmara e mise-en-scène sobre a montagem, afirmação barroca de uma vontade operática, neo-kabuki.

Durante um ano encontrámo-nos regularmente com o propósito de convertermos “A Ilha dos Amores” num livro. Se conheci alguém que por delicadeza estivesse disposto a perder a alma, foi o Paulo Rocha. Arriscava em cada frase inventar um mundo novo. O olhar dele era incansável: associava épocas, cruzava culturas, samurais a povoar a Europa, uma perversa sensualidade de gueixas e quimonos.

A riquíssima cultura de Paulo Rocha era livre e desarrumada. Nas suas conversas com os outros não havia necessidade de contraditório. Os argumentos nunca se negavam, eram camadas que se iam sobrepondo, corrigindo-se e combinando-se numa lógica que gerava sempre harmonia.

Deixou-nos duas ideias de cinema, a novidade lírica dos “Verdes Anos”, a estética do excesso da “Ilha dos Amores”. Mas não é a mesma coisa termos um mundo com ele, com a sua eloquência mágica, a sua conversa de seda, e um mundo, um pobre mundo absorto, sem ele.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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12 respostas a Paulo Rocha

  1. Maria do Céu Brojo diz:

    Constatar a homenagem merecida é lugar-comum. Incomum é descrever assim o homem, o cineasta, a figura grande da cultura portuguesa.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Maria, mais do que a classificação no cânone, do que gostava no PR era da gentileza e da voz um bocadinho arranhada.

  2. A terceira via parmenediana para o povo dos achamentos será a via nocturna, se seguirmos a passagem, na luz, estará o país bom aluno (o vídeo tem alguma nudez, povo pobre nem para o black friday do El Corte Inglés tem dinheiro para uns míseros andrajos que a pele lhe cubram a derme, que a epiderme já a não tem -, ver com os olhos fechados).

    (apesar do assalto fiscal) UM BOM ANO A TODOS

    • curioso (black year) diz:

      agradeço e retribuo, com algum agasalho, à espera de muitos black days no corte português, fino como um alho 🙁

    • Manuel S. Fonseca diz:

      BOM ANO TAXI. E VAI SER UM ANO DE ABRIR OS OLHOS, Ó SE VAI.

  3. Ivone Costa diz:

    Estar disposto a perder a alma por delicadeza é o que de mais bonito se pode dizer de alguém. Belo texto, Manuel.

  4. Rita V diz:

    ‘Verdes Anos’ a memória mais antiga que tenho de um filme português!!

  5. Manuel S. Fonseca diz:

    Lírico, quase ingénuo, mas muito mais “arquitectural” do que se possa pensar.

  6. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Para escrever com ternura é preciso viver com ternura e haver uma certa bondade no olhar, mesmo gratidão por isto tudo que nos é dado a rodos, ou não sendo, vamos buscar com vontade. Sim?

  7. nanovp diz:

    Os grandes têem a felicidade de poder deixar a obra, mesmo quando deixam o vazio da falta que fazem…

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