Pequena história sem dono nem fim à vista

A noite nem sempre procura quem a espera. Dito assim, julgar-se-ia a noite feita vontade e decisão e toda gente sabe que prosopopeias dessas são herança do pensamento mágico e nada conformes ao cinismo escurecido dos tempos que se vivem.

 João Lourenço também pensava desse modo, porém o cansaço dos repetidos encontros com os seres de comum essência ontológica persuadira-o, embora não quisesse confessá-lo abertamente, de que habitava nas horas e nas pedras uma alma secreta pronta a animar-se ao sopro de quem, pigmaleando, a pudesse tornar semelhante.

Conhecia dois ou três poetas que esperavam a descida da deusa enquanto não eram expulsos da cidade e neles procurara complacência e companhia. Tinha-se cansado, com o tempo, dessa lírica sociedade, que os poetas são gente de si, em si mesmos joeirando palavras ou metáforas enquanto burilam, cismados, os fonemas que guardam para os dias maus.

Procurou depois o grémio dos objectos e encostou  o ouvido às velhas jarras da mãe de Teresa como se fossem  búzios  e guardassem  o arrepio do mar ou o volteio das estações. Objecto que devolve o que tem a mais não é obrigado, ainda bem que o pensou e com esse remate evitou desilusões maiores.

Tinha já descrido da categoria dos inanimados e firmado pactos tácitos com a normalidade, quando ouviu que o chamava a noite que acordava no rebordo da janela. Não há noite que não tenha uma voz de sereia quando o mar se faz viagem.  João Lourenço sabia-o, mas há momentos em que voz que vem à rede não se manda de volta.

Tomou uma nuvem pela noite, dirão os mais acostumados aos mitos, mas não é bem assim. Todos os mitos bifurcam no jardim dos sentidos e é isso que salva ou perde os homens, o lado para onde cai a aliança da interpretação.

Habituou-se a esperar a noite e a sua voz de rendas antigas junto à mais alta das janelas e esperava-a com a cortês compreensão de quem espera uma amante recente em quem confundia ainda a demora com o temperamento.

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.
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4 respostas a Pequena história sem dono nem fim à vista

  1. Ivone, estes heróis que se dão com poetas e escutam pedras, a cidade faz-lhes o que fez ao Sócrates da Apologia. Boa renda (antiga?) a sua.

    • Ivone Costa diz:

      Isso sei eu, Manuel, resta-lhes um destino de cicuta, que é para aprenderem a procurar outras companhias. Obrigada.

  2. Maria do Céu Brojo diz:

    Elogiar de novo excede o meu quinhão mensal?

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