Podem as ruas ser todas a descer?

Deus pode fazer o que quer? Duvido!

Comentando este post em que eu matava os embuçados de Magritte, o meu caro mestre Manuel S. Fonseca escreveu “Hen­ri­que, tu é que és deus, o nar­ra­dor”. Queria ele dizer que eu, como narrador, era o único responsável pela morte dos amantes

Ora eu quero contrariá-lo. Porque o narrador, podendo ser considerado deus, está limitado por algo cuja explicação é aqui fastidiosa. Penso mesmo que, se existe livre arbítrio na teologia cristã, é porque Deus sentiu o mesmo quando pôs os homens e mulheres – suas criaturas – a interagir (isto não é uma defesa do criacionismo, é apenas um argumento a benefício do debate).

Sempre que escrevi ficção senti esse limite. Caramba! Há uma lógica, uma envolvência e uma sequência que impedem o autor, por muito tirano que seja, de pura e simplesmente fazer o que quer. De matar quem não deve morrer, de fazer nascer quem não deve nascer, de fazer emigrar quem não deve emigrar. Ou melhor, poder pode, mas estraga a narrativa, como naquelas telenovelas baratas em que um ator se zanga e por causa disso a sua personagem morre num desastre qualquer que nem sequer vinha a propósito.

Antes de eu próprio passar pela experiência, quando ouvia um criador dizer que as personagens ganham vida própria, achava que era conversa intelectualóide. Mas pela prática percebi que é verdade.

O meu avô contava que um louco da terra dele (Vila Nova de Paiva, Viseu) dizia: “Se eu mandasse, as ruas eram todas a descer”. Quando alguém o alertava que, se desciam, haviam também de subir, ele respondia: “Em sendo eu a mandar, não!”.

Estão a ver por que razão um deus assim é impossível?

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
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7 respostas a Podem as ruas ser todas a descer?

  1. curioso (livre al vitre) diz:

    aqui a questão ‘fia mais fino’… ‘quem tudo quer, tudo perde’. Deus não quer nada, não pode nada, nada perde (nem ganha). alguém disse que ‘só é verdadeiramente livre quem não tem nada a perder’. nem medo. por isso, o narrador (mesmo em ficção) não será livre, pois creio que terá sempre algo a perder (ou a ganhar). e isso limita-o, condiciona-o, até a blogar, pois tudo está ligado ao seu ‘esta tuto’ . está tudo dito? al vitro 😉

  2. Henrique Monteiro diz:

    Está, de facto, tudo dito. Bendito! Ou Ben Dito, ou Ibn Dito

  3. Em primeiro lugar, estou todo enxofrado por ter sido contrariado. Estou como quando era um garoto de aldeia beirã, antes de ir para Angola, e fazia birra se o prato não transbordasse de azeite para ensopar as batatas cozidas.
    Posto isso, subo para cima da mesa, como o PN nos tempos do la chunga e arrefinfo no Henrique: o narrador faz o que quiser, sim senhor. Mais: tomara Deus, tomara Deus.
    Diz o Henrique que as personagens ganham vida própria. E eu: não ganham nada, não ganham nada, É o narrador que lhes inventa a vida para depois justificar que têm de ser assim, que não faz sentido que procedam de outro modo e, lailailai como cantaria a Eugénia, que foi a personagem que escolheu aquele caminho. Resumo: os narradores querem é ser Pilatos e passam o tempo a lavar as mãos.
    Desafio: ó Rita desenhe lá isto numa das suas ilustrações se faz favor:

    • Henrique Monteiro diz:

      Tenho um argumento que dá cabo dos teus. É assim: ai, ai, ai que a gente zanga-se e o namoro acaba-se! Pensando bem, tu podes ser uma personagem minha, ou vice-versa, e nesse caso tambem nos podemos matar um ao outro. Seja como for, dentro de 50 anos veremos quem tem razão – caso o autor não nos mate…

  4. Esse “louco” da terra do seu avô era Escher? Não me consta que fosse beirão, mas… quem sabe 🙂
    http://jovemnerd.ig.com.br/wp-content/uploads/Escher_Waterfall.jpg

  5. nanovp diz:

    O momento a seguir à criação é o primeiro momento de perda de controlo…

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