Poor White Trash: Um Filminho de Natal

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Hannibal, o lobo-mau, de olhos tão grandes, nariz tão grande, boca tão grande – é para te comer – encosta-se a Clarice, o capuchinho vermelho, vestidita com a melhor roupa de rapariga das berças, e o hálito dele só não chega a ela porque há uma parede de vidro. Mas Hannibal vê através de Clarice: “You know what you look like to me, with your good bag and cheap shoes? You look like a rube. A well scrubed hustling rube with a little taste. Good nutrition has given you strength of bone, but you´re not more than one generation away from poor white trash”.

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O momento do primeiro encontro entre o assassino em série e a agente do FBI de “O Silêncio dos Inocentes”, de Jonathan Demme, é das poucas cenas do cinema dos anos 90 que vale a pena ser decorada. Linha a linha, plano a plano, respiração a respiração. É uma fita seminal, que inaugura um novo género – o thriller de “serial-killers” –mas é também um brilhante repositório de numerosas tradições e variações do cinema clássico americano, e de algumas correntes europeias, de Hitchcock ao “film noir”, dos “trash-movies”  à “sexploitation” da fábrica Roger Corman, do “giallo” a Seijin Suzuki, do “Estrangulador de Boston” e “10 Rillington Road” de Richard Fleischer aos melhores trabalhos de Ida Lupino. Obra de todos os medos – o medo de cair no abismo, o medo da escuridão, o medo de não mais acordar, o medo do passado -, passa pela “banalidade do mal” e aterra face a face com uma personagem de uma repelência extraordinariamente atraente: Hannibal Lecter é poeta, pintor, historiador, filósofo, conhece William Blake e é capaz de citar de memória “O Inferno” de Dante, sabe de vinhos como poucos e gosta de favas e um bom Chianti a acompanhar o fígado de técnicos de recenseamento. Hannibal é dado à mutilação e ao canibalismo, mas a sua especialidade é “to fuck people´s minds”. Clarice, a uma geração do miserável lixo branco, dos indigentes dos “trailer parks”, das caras tristes coladas às janelas dos autocarros da América profunda, a orfã Clarice que foi viver com um tio “hillbilly” que degolava cordeiros, madrugada dentro, é a vítima perfeita. Mas é também uma cúmplice e, de alguma forma, uma companheira. O poder perverso de “O Silêncio dos Inocentes” não está nas peripécias policiais, nas atrocidades de “Buffalo Bill” (o assassino a monte que aprecia fazer casacos da pele das mulheres que captura à porta dos supermercados), nos pormenores de medicina legal que ajudam a apanhar o criminoso (e que darão origem a inúmeras, e intensamente boçais, variações forenses, como as séries televisivas “C.S.I.”). O poder perverso de “O Silêncio dos Inocentes” está na tensão sexual entre Hannibal e Clarice.

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O filme está carregado de sexo como poder magnético, e como dínamo repulsor. De Clarice e do grupo de agentes fardados que com ela se fecham numa sala, prontos a devorá-la pela humilhação, a Clarice e o seu superior no FBI, Jack Crawford, interpretado por Scott Glenn (amante dela num dos livros originais). O exercício de força/repulsa tem como origem o tio de província, esse que degola os cordeiros inocentes no silêncio da noite – “The Silence of the Lambs” -, e as derivas culminam em figuras alfa bastante mais velhas do que Clarice: Crawford, o inefável Dr. Frederick Chilton e, claro, Lecter. É a mesma tensão que ligava e repelia o Conde Drácula e Elisabeta/Mina Murray em Bram Stoker, o King Kong e a Ann Darrow de Merian C. Cooper, a criatura de Frankenstein, Prometeu moderno, com a amada Elizabeth das obras-primas de Mary Shelley/James Whale, ou todas as Belas e Monstros simbolizando a força animal da masculinidade e a beleza idealizada de Vénus e Afrodite.

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O filme é uma adaptação do romance de Thomas Harris, mas baseia-se em dados mais reais do que se poderia supor, recorrendo à experiência pioneira de “profiler” (o investigador que elabora o perfil de um assassino) de John Douglas, membro da unidade de criminosos em série do FBI, que ajudou a prender e entrevistou figuras como Charles Manson e o Filho de Sam – vale a pena ler “Mindhunter”, o livro técnico, mas intensamente autobiográfico, de Douglas (é tão atemorizador que se passa a querer sair de casa acompanhado de uma unidade de tropas especiais).

Jonathan Demme, que trabalhou com Roger Corman e sabe como ninguém a importância de ter um vilão carismático, constrói o filme com suprema inteligência,  em pleno domínio das suas imagens de marca: personagens a olhar para a câmara – ou seja, a olhar directamente para o espectador -, câmara subjectiva, planos-sequência calibrando o suspense e a montagem paralela de pôr os cabelos em pé, como o momento de génio em que a equipa do FBI bate à porta de uma casa que julgamos ser a de Buffalo Bill, mas este abre a porta, e é a indefesa Clarice, a centenas de quilómetros dali, a bater na casa certa do assassino. A estratégia formal atinge o clímax (em todos os sentidos) no primeiro encontro  –  o “first date” do futuro namoro? – entre Hannibal e Clarice.

Demme explica: Clarice (Jodie Foster, a actriz mais expressionista de Hollywood) atravessa o curto corredor da penitenciária/asilo; vemos Hannibal pelos olhos dela, imóvel, naquele sorriso de Barba Azul (Anthony Hopkins, os olhos forjados em lava branca); ela faz perguntas, agarrada à malinha, o blazer barato, a camisa fina mostrando ao de leve a roupa interior; mas é ele que arranca respostas, invertendo os papéis, como se o seu olhar radiografasse o insustentável peso da intimidade. Demme lança-se ao campo/contracampo com a câmara cada vez mais apertada, como se algo algemasse as personagens, até a distância entre ambas ser nula, asfixiante. Aí, no ponto de sufoco, coloca-as tão perto da lente que se uma delas se mover, tudo ficará desfocado.

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Quedam-se em câmara subjectiva, ao som da voz de Hopkins (que diz ter tentado imitar o timbre falsamente neutro de Hal, o computador de “2001, Uma Odisseia no Espaço”), a rasgar o passado de Clarice como facas em carne de ovelha: “Esse sotaque que procuraste tanto esconder – puro West Virginia. E todas essas carícias pegajosas no assento de trás dos carros, enquanto só pensavas em sair dali…”.

Clarice está nua, à mercê do terror. Olhos grandes, nariz grande, boca grande, para te comer melhor.

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Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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7 respostas a Poor White Trash: Um Filminho de Natal

  1. Vasco (da) Gama diz:

    até pode ser, mas acho um pouco grosseiro como filme de Natal e ainda estou à espera de ver o “música no coração” (ou “a noviça rebelde”, como lhe chamam no Brasil).

  2. É engraçado, tive uma conversa, na estreia, em 91, com o João Bènard. Eu insistia no paralelo com o universo do conto de fadas. Não me parece que o tenha convencido, na altura.
    E tens toda a razão, a boa nutrição dá muita força aos ossos.

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    Se a despropósito da quadra, não interessa ‘nadica de nada’. Passei a lembrar o filme com filtro novo. Isto já me importa.

  4. nanovp diz:

    Senti o bafo do Hopkins e o medo sedutor da Foster…por uma enorme coincidência vi pela primeira vez o filme numa noite de consoada!

  5. Ena, Bernardo, nem quero pensar na tua escolha de filmes para os aniversários! Fico contente por essa segunda visão, Maria do Céu. A “Noviça Rebelde” é mais para o dia de Ano Novo, Vasco da Gama: “The hills are alive”, e coisa e tal. O paralelo com o conto de fadas também me parece muito adequado, dottore: o canibalismo, os cordeiros, o capuchinho vermelho, o poço onde o assassino aprisiona as vítimas para as continuar a engordar, está lá tudo.

  6. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Ainda estou na barriga do lobo à espera que chegue o lenhador para me salvar deste poço de letras, e zás, lá cima, até vertigens… Irra, Pedro, entre dois bons textos, há que respirar como o vinho!

  7. Como a Eugénia diria, merci. É muita simpatia sua.

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