s/ título, 2012

Quantas moradas tem o território a que se chama arte? Para Pedro Cabrita Reis, a arte é uma actividade filosófica, um trabalho de permanente expansão, negando a existência de fronteiras através da colocação de pontos de interrogação. A sua obra funciona como um sistema de intervenção no mundo, integrando diversas expressões, disciplinas e matérias primas na busca de uma nova perspectiva do humano e do seu lugar: uma outra fita métrica para nos medirmos a nós próprios ou aos espaços que habitamos e uma balança diferente para avaliarmos o peso da existência. E se a arte não tem fronteiras, não admira que os suecos o conheçam. E os alemães, os brasileiros, os ingleses e os mexicanos, também. Mais: se a arte não tem fronteiras, não admira que suecos, alemães, brasileiros, ingleses e mexicanos o entendam. O passaporte sem necessidade de carimbos ou vistos para entrar na sua obra é ser-se humano (tarefa em si mais difícil do que possa parecer).

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Com a exposição permanente de três peças na Tate Modern de Londres, a participação na Bienal de Veneza e de São Paulo e exposições nos 4 cantos do mundo, é um dos mais reconhecidos artistas plásticos portugueses. Mas para quem não o conhece (é preciso viver-se noutro mundo para não o conhecer), aqui fica o aviso: é mais provável ver Pedro Cabrita Reis com um charuto na mão do que com um pincel.

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Se tivesse de lhe dar um rótulo (mesmo sabendo como ele os detesta), chamar-lhe-ia “o filósofo que materializa o seu pensamento”. Ou, sendo mais poupada nas palavras: “o artista construtor”. E se os seus temas são filosóficos, as suas construções são um exercício antropológico. A profundidade espreita nas brechas da superfície e cabe ao espectador seguir as pistas para outras formas de habitar o espaço e o silêncio.

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Entre o excesso de sentido e o silêncio, há palavras que atravessam a obra de Pedro Cabrita Reis: território, cidade, luz, casa. A casa e outros sítios mais, porque os espaços públicos podem ser a tela deste “pintor que faz outras coisas”. E atenção: a sua cidade não segue um mapa nem obedece a uma geografia, é um território mais pessoal e misterioso, uma cidade quase antropológica, edificada por uma arquitectura espontânea, por contraponto à paisagem.

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A multiplicidade das narrativas cria discursos antagónicos em que natureza e artifício, simplicidade e excesso e próximo e distante se complementam ou confrontam. Sem dialéctica, o mundo seria um lugar imóvel.

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Se a realidade ocorre e corre com delimitações, exclusões e formas de ocupação, num trânsito entre o visível e o invisível, as memórias da matéria estão à vista. Faz parte da obra do autor revelar não só os materiais utilizados como os seus processos de construção. Herdeiro de objectos frágeis como uma porta sem-abrigo, fragmentos de escadas, um pedaço de parede ou meia janela e desperdícios como lâmpadas, cadeiras de madeira e vidros partidos, Pedro Cabrita Reis reconhece a riqueza do lixo, que traz vida própria. A este lixo com nostalgia junta o artista plástico blocos de cimento, luzes fluorescentes e outros objectos industriais, numa domesticação da estranheza. Não existe matéria desabitada, nem que os seus ocupantes sejam fantasmas ou assombrações. 

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Nas habitações de tijolos sem portas, o interior e o vazio estão à vista e destas construções pode-se dizer que, se não são cegas (como as cidades criadas pelo autor) são pelo menos mudas, porque a porta é a boca da casa.

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A iluminação artificial e a cor são outras matérias fundamentais na obra de Pedro Cabrita Reis, permitindo conquistar lugares com volumes, inventar espaços de sombras e desenhar metáforas de luz.

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Como uma morada longínqua à distância do olhar, a obra de Pedro Cabrita Reis convoca a intuição poética do espectador para reinventar o sentido deste outro mundo nascido do exercício do pensamento. E mesmo sem o saber, é sempre a si próprio que o espectador se está a pensar.

Sobre Maria João Freitas

Graças às palavras, às vezes sou Alice e faço perguntas sem parar. Outras, sou a namorada (platónica, esclareça-se) de Wittgenstein. Quase sempre, penso que tenho a sorte de viver da (e na) escrita. Porque escrever pode ser triste, mas é melhor que ser feliz.
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9 respostas a s/ título, 2012

  1. a.riès diz:

    e escreveu muito bem sobre a obra de cabrita reis.

  2. Curioso (con fronto) diz:

    Ultrapassou o imaginável para me con vencer. Quase conseguiu mas o meu mundo ainda tem fronteiras… É bom sabê-la mais que feliz por tanto nos dizer. Obrigado 😉

  3. Pedro Bidarra diz:

    Os artistas são como os amigos. A pessoa tem meia dúzia, de verdadeiros, na sua vida e chega. O PCR é um desses. Que feliz fico por tê-lo aqui neste triste lugar. E que feliz fico com o teu texto, mulher.

  4. Manuel S. Fonseca diz:

    Bela apresentação. E gosto da palavra construtor, é bom haver um artista com mãos.

  5. nanovp diz:

    Não é fácil descrever a obra, talvez mais simples seja descrever o autor, e o seu famoso charuto, mas muito fica dito com a frase ” sen dialéctica o mundo seria imóvel”. Aí está uma bela síntese da obra artística : pôr o mundo a pensar para que evolua sempre…

  6. Rita V. diz:

    Maria João belíssima escolha de imagens. Obrigada Pedro Cabrita Reis.

  7. Maria do Céu Brojo diz:

    Feliz com o texto e com a escolha do Pedro Cabrita Reis.

  8. José A. diz:

    Sim. Ou não. Ou talvez. O Pedro Cabrita Reis também é muito útil simplesmente para estar. Com ou sem copos ou charuto.

  9. Pedro Delillr diz:

    A t

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