Se calhar sou feliz e não sei

Estou em pulgas para passar para outro ano. Não gostei deste! Pergunto-me, aliás, se alguma vez voltarei a gostar de um ano, como gostei, por exemplo, de 1962 ou de 1974. Podia enumerar muitos outros anos – gostei e tenho saudades de quase todos.

De alguns gostei porque era novo; de outros porque tinha esperança. E houve aqueles em que estava apaixonado e também esses em que decidi ser sério e importante ou, então, maestro e louco. Para não falar daqueles em que pensei salvar o país ou o mundo e dos que decidi viver como um anacoreta, ou quando pensei ficar rico ou em apenas ser feliz com o mar.

Agora, não vejo motivo para gostar deste 2012, foi feio e foi mau. Mas, quando penso no assunto, e eu penso sempre seriamente nas coisas, tenho de admitir vir a apaixonar-me por ele no futuro. E, o mesmo se passa com 2013, porque também não vejo como possa gostar de 2013, tendo em conta as coisas que fui sabendo a seu respeito. Ora, se 2013 for pior, terei, então, saudades de 2012?  E poderei, mais à frente, lamentar não estar em 2013?.

Podemos ser felizes e não sabermos?

Podemos!

Aprendi isso com Ataúlfo Alves, um homem que nasceu pobre em Miraí, pequeno município de Minas Gerais, em 1909, e morreu aos 60 anos, no Rio de Janeiro, consagrado como um dos maiores sambistas populares, sendo o seu maior sucesso Ai que Saudades da Amélia.

No samba Meus tempos de criança (de 1956, ano em que nasci) ele explica, com muita simplicidade, este conceito da ignorância acerca da felicidade pessoal. Bem sei que se pode criticar esta versão um pouco salazarista do ‘pobretes mas alegretes’, mas é só para vos explicar o medo que tenho de ser feliz e nem sequer dar por isso.

Fica a canção

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
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15 respostas a Se calhar sou feliz e não sei

  1. Vasco (da) Gama diz:

    gostava muito de lhe dar algum alento para 2013, mas creio que não consigo garantir-lhe o que quer que seja, mas, para mim próprio, vou com uma grande ilusão para o próximo ano, creio mesmo que poderá ser o melhor ano da minha vida (bem vê que sou um muitíssimo optimista).

  2. António Barreto* diz:

    Trata-se, como sabemos, de uma percepção relativa. Claro que a maior parte de nós é feliz e não “sabe”. Basta uma visita ao Centro de Reabilitação do Alcoitão, ou congénere, para o descobrir.

    Não esqueço os olhos exuberantes de felicidade de Maria – uma alentejana esperançosa que levou seu filho tetrapelégico a uma afamada clínica cubana -, apenas porque o seu menino tinha mexido um dedo da mão uns cinco milímetros.

    Não esqueço aqueles outros pais, na mesma clínica, esperançados no “milagre da ressurreição” de seu menino, vivo por fora e morto por dentro por degenerescência cerebral.

    A muitos dos que choram baba e ranho pelas agruras da crise, faria bem uma destas visitas.

    Quem é verdadeiramente infeliz, sabe que o é.

  3. I had a farm in Africa…….Não há Natais como em Moçambique! Não havia Leões à porta e LM (Maputo), tornou-se uma grande cidade que os que lá vão agora nem imaginam. Tenho pena que não saibam que nos jardins das casas se faziam árvores com prendas para os “vizinhos”. Logo ao lado na África do Sul…Johanesburg, era NY……e vejo com tristeza que as novas gerações não saibam que havia Torres com 50 andares , O Carlton Center entre outros éram maiores que qualquer Vasco em Portugal…escadas rolantes desde os anos 50!!!! Como fui despejada, sem apelo nem agravo da terra onde nasci e nasceram os meus….Fim de ano no Polana com 40 graus e acordar na praia?! Poder vestir cai-cai sem tiritar nun esconso qualquer. Ninguém me tira e já ninguém o pode viver…..1979, o último.

  4. Henrique, com Ataulfo Alves ao nosso lado nunca há anos maus. E pensava eu que que o AA era um segredo meu. Maravilhosas orquestra, uma ingénua e incalculada eficáciadas letras. Ah, grande Ataulfo.

  5. Clara diz:

    Tenho um amigo que diz que a felicidade é um estado passado, eu sempre contesto, embora entenda, porque de facto acho que temos que estar atentos para que felicidade seja um estado presente.
    Correndo o risco de um lugar comum,… o que passou só vale porque nos ajuda no agora, não há coelho nem cenoura que nos possa tirar isso.

    • curioso (sei não) diz:

      felic idade é tudo isso em nós e nos que nos são (mais) próximos, não cabendo aí egoísmo, indiferença, ódio, inveja: o passado, presente e futuro, em que o presente é quase nada entre a manhã e a tarde, entre a tarde e a noite, entre o dormir e acordar, entre o ontem e o amanhã. renova-se, retoca-se, recupera-se… ou perde-se (ou não se tem).

  6. Maria do Céu Brojo diz:

    Maravilhoso modo de na sua inquietação nos inquietar. Com sua licença que ainda não tenho, guardei o vídeo.

  7. Ruy Vasconcelos diz:

    Ataulfo é bamba. Boa lembrança.

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