Sempre que Cristo desce à terra

Sexta-feira, fui à missa. À grande missa em dó menor, K 427 na Gulbenkian. Fascínio absoluto, como sempre que o Coro e a Orquestra dirigidos por Michel Corboz entram no seu reino preferido, que é o da música sacra.

Gostava, antes que o ano acabasse e a oportunidade se perdesse, de elogiar muito Corboz, a Orquestra e o Coro da Gulbenkian. O maestro suíço, desde 1969 entre nós, é um grande senhor da música, nomeadamente em Bach e Mozart. A Orquestra, que completou 50 anos neste 2012, é competente e límpida, o coro, da responsabilidade do maestro Jorge Matta, é glorioso. O conjunto fica entre o melhor que se faz pelo mundo.

Nesta missa, salientaria ainda as vozes de Sylvia Schwartz, espanhola ainda jovem de créditos firmados, e de Sónia Grané, portuguesa, ainda mais jovem, com enorme potencial. Ambas (sopranos) estiveram a alto nível, com Luís Gomes (tenor) e Job Arantes Tomé (barítono/baixo) que foram competentes.

O resultado foi sublime

Nada me aproxima mais de Deus do que a música. A boa música sacra é como as catedrais – transmite harmonia e paz e cria um ambiente outro, para que saiamos deste mundo e, por uns instantes que seja, nos possamos sentir transportados para outro, aquele em que estamos irmanados na beleza e na perfeição.

Sim, tudo o que sei sobre Deus e os mistérios da vida ensinou-mo a música. E por isso não o sei explicar. Está no domínio do indizível.

 

As missas começam pelo Kyrie – única parte da missa em latim que é dita em grego. (Senhor tem piedade de nós/Cristo tem piedade de nós/Senhor tem piedade de nós).

Kyrie eleison
Christe eleison
Kyrie eleison

Esta palavra eleison, por vias estranhas que não vou esmiuçar (até para não aguçar a inveja do meu maître Manuel sobre o meu dicionário etimológico e o meu dicionário Hatier de Latim e Grego), deu em português a palavra esmola (está bem, pronto! eleison é o imperativo de eleo em grego e eleemon e eleemosyné, outras formas da mesma palavra, viriam a dar limosna em espanhol, o alms em inglês, o almosne (aumône, modernamente) em francês e limosina em italiano).

Estamos, pois, todos ali à esmolinha de Nosso Senhor Jesus Cristo. E se, quando a esmola é grande o pobre desconfia, que dizer quando a esmola é ouvir aquela grande missa de Mozart na perfeição e clareza de todos as suas notas e de todos os seus acordes?

Este Kyrie, que aqui deixo por Kiri Te Kanawa (não encontro Sylvia Shwartz a cantá-lo), é pela remissão dos meus e dos vossos pecados! Ora tomem:

 

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom.
Sem nunca me levar a sério – no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom
(e barato).

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6 respostas a Sempre que Cristo desce à terra

  1. Eu pecador me confesso

  2. curioso (kyrioso) diz:

    o raio dos americanos, com sua eterna e descomunal mega lomania, fizeram uma bruta confusão com a sua versão limousine 😉

  3. nanovp diz:

    Pecador por invejoso me sentir de não ter estado lá….

  4. Foi de facto maravilhoso! E esta interpretação da Kiri dá para remir muitos pecados! Dos dela, claro… Quanto a ser “um homem bom”, acredito. Mas “barato”…umh… Até porque os bilhetes foram caríssimos! A menos que tenha ido como convidado…mesmo assim valeu totalmente a pena ir lá!

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