Solidão Itemporal

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É como um turbilhão que atravessa os ares,  arranca-nos do chão e põe-nos a voar, dando-nos asas que acreditávamos não ter.

É a literatura como se fosse vida, como sangue que corre no corpo. Um mundo que se abre, enorme e profundo. Nada é real, mas tudo poderia ter acontecido, tudo terá acontecido, tudo acabou por acontecer um dia, nesse dia, sobre as ravinas avermelhadas defronte do oceano, quando comecei  a ler esta fábula intemporal onde uma saga familiar se confunde com o próprio Universo, numa inventada Macondo, vila arquétipo de todas as vilas, de todas as cidades do mundo.

A partir desse dia continuei a ser fustigado por essa criativa baforada de letras, sublimes na escrita, certas no ritmo, surpreendentes no imaginário construído.

Cem Anos  de Solidão é uma ficção sobre o tempo do Homem, o tempo elástico e metafísico que desafia todas as leis racionais que tantas vezes nos identificam. Porque a verdadeira humanidade está intrinsecamente ligada ao tempo, àquilo que muda, àquilo que envelhece, ao que morre e ao que nasce, sabendo que  nada fica na mesma.

E por isso,  tudo se passa em volta de uma família, entre mãe e filha, avó  e neto.  Porque somos, todos, indiscriminadamente, menos racionais do que aquilo que tendemos a mostrar, e aceitamos  que os sonhos se confundam com a realidade, que a incredulidade se torne crença, pois como diz Úrsula a matriarca protagonista “é como se o mundo estivesse a andar em círculos.”

Macondo e os seus habitantes tornam-se vivos no cheirar das árvores e plantas da rua; no sentir a poeira que se levanta no verão; nas chuvas que duram ” quatro anos, onze meses e dois dias”; nas gotas de suor, gordas e balofas que escorregam na pele de um qualquer descendente da família  Buendía.

Talvez o que torne esta leitura uma leitura de vida é o profundo humanismo das personagens, humanismo que passa pelo entendimento de que o imaginado é tão real como o real que se imagina.

E porque Cem Anos de Solidão é também um livro aberto, que não tem principio e não tem fim. A saga familiar inclui todo um mundo que se representa nos aspectos mais ínfimos das descrições, do amor à política, da paz à guerra, do ódio ao sexo, da humildade à violência.

É um mundo criado à imagem de quem sempre olhou a vida com os olhos abertos de espanto, um espanto que não esmorece com a inverosimilhança de mortos que vivem junto dos vivos, de padres que se elevam no ar, de peixes que nadam fora de água, de amores telepáticos e de ódios encrostados em tradições.

É uma aventura que se recomenda.

“Depois, durante mais de dez dias, não voltaram a ver o Sol. O chão tornou-se húmido, como cinza vulcânica, a vegetação era cada vez mais insidiosa, cada vez ficavam mais longínquos os gritos dos pássaros e a algaraviada dos macacos, e o mundo ficou triste para sempre. Os homens sentiram-se assombrados pelas suas recordações mais antigas naquele paraíso de humidade e silêncio, anterior ao pecado original…”

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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6 respostas a Solidão Itemporal

  1. Bernardo, um livro que pelas tuas mãos chega assim, sem príncipio nem fim, e que nos põe a sonhar coma mulher mais bonita do mundo… Está Escrito, muito bem escrito.

  2. Maria do Céu Brojo diz:

    Delicia o texto. O livro, tinha-o no coração, assim tão mimado pelo espírito nas teclas do Bernardo, apetece como se acabado de dar à estampa.

  3. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Este foi o meu quinto livro de crescidos, pela calada, muito bem lido como tudo o que é proibido – ou se julga interdito. Que boas memórias me desenterrou, até da casa como se fosse ainda viva.

  4. nanovp diz:

    Eu acho que a casa ainda está viva Eugénia, assim como a escrita a vontade de ler e as memórias…

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