The best funeral ever

Quando lhe perguntaram porque decidia, assim sem mais nem menos, no pico da consagração, pôr um ponto final na carreira dos seus LCD Soundsystem, James Murphy limitou-se a dizer, simplesmente, que, ultrapassada a fronteira dos quarenta anos, já se sentia ridículo aos pulos em cima de um palco. Ah, e que queria ter filhos, que queria ter uma família (onde é que eu já ouvi isto?). Bem vistas as coisas, é mais do que suficiente como explicação. E, mesmo fora do circuito da indústria musical, é capaz de ser uma bela lição para o futuro para todos os que não conseguem libertar-se a tempo do complexo Peter Pan. Claro que há sempre a hipótese – e bem plausível para todos os que não acreditam que um talento como o de Murphy se possa desperdiçar prematuramente – de isto ser tudo um golpe de marketing, e sabe-se como não há melhor marketing do que se fingir de morto para depois desfazer o equívoco.

A verdade é que, até ver, os LCD acabaram mesmo. Murphy, desconfiamos que continuará bem vivo, a fazer das suas, algures por aí. E, como não sabe fazer nada mal, até o funeral foi em grande. Há quem diga que foi mesmo the best funeral ever. Aconteceu no Madison Square Garden em Abril passado e ficou registado em filme, Shut Up and Play the Hits.

E, agora, se não levarem a mal, vou pô-los a tocar – aos LCD, claro – e vou-me pôr aos pulos, freneticamente, pela casa fora. Prometo que ninguém vê que eu também já não tenho idade para figuras ridículas.

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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16 respostas a The best funeral ever

  1. riVta diz:

    gosto mais dos clips que da música mas por tua causa fui conhecê-los
    Um a Zero para ti

  2. Henrique Monteiro diz:

    Não há pior do que envelhecer sem dignidade…

    • Diogo Leote diz:

      Não digas mais, Henrique. Já desliguei a música e parei com a minha dose de figuras ridículas.

  3. curioso (extremado) diz:

    será mau, mas há pior, certamente 😉 parece mal de família?

    • Diogo Leote diz:

      Curioso, não me pergunte aquilo que não lhe sei responder. No fundo, no fundo, acho que ainda sou um jovenzinho.

      • curioso (per verso) diz:

        Diogo, não me atreveria a tanto (e sem fundamento). foi uma partida do sistema que não se dá bem com o meu XP/IE. e é que apenas comentei o comentário do HM 😉
        desejo-lhe (em com pensa ção) uma vida longa & feliz 🙂

        há 3 regras: nao fugir, nao fazer motim e nao pedir comida…

  4. Isto é um bocadinho como se o Manuel João Vieira decidisse retirar-se. Era uma choradeira descabelada e Lisboa em crepes. Qual envelhecer! Neste blog toda a gente dança, a começar pelo PN em cima das mesas do La Chunga, embora tenha me tenha constado que há espectáculos que eu desconheço…

    • Diogo Leote diz:

      A nossa sorte é que, por enquanto, ainda há sítios reservados para quem não quer envelhecer: aqui o EéT, o La Chunga e outros que tais.

  5. Já não há sentido do ridículo:

    • Diogo Leote diz:

      Isso, vindo de quem, como o Clint, tem sabido envelhecer muito bem, é um conselho mais do que sábio.

  6. Rita, e ainda só vamos nos primeiros minutos. O que vale é que o jogo dura a vida inteira e tu tens os teus desenhos e tesourinhos deprimentes da canção ligeira para acabares com larga vantagem sobre mim.

  7. vgrilo diz:

    Diogo, estava lá em NYC nessa noite mas de bilhetes nada. Culpa da pouca organização e de não me teres telefonado a avisar…

  8. Deixa lá isso, Vasco,estou certo que ainda te irás cruzar com o James Murphy em NY. E, com sorte, ainda o ouves cantar as palavras de ordem: New York I love you but you´re bringing me down…

  9. Maria do Céu Brojo diz:

    Discordo: não há idade para cenas ridículas. Sou perita neste particular. «Pormaior» é o de não sentir culpa. As convenções que se danem. Posso bem com elas.

    • Diogo Leote diz:

      Maria, fico à espera de uma dessas “cenas ridículas”. Prometo que não vou culpá-la de nada.

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