Um jogo perigoso

 

Anne nunca lhe vira a cara. Nunca lhe vira a cara e agora aqui estava ele, aparentemente sem vida, um peso morto tombado sobre a cama onde, nas últimas oito semanas, sempre à mesma hora do mesmo dia da semana, se tinham ambos entregue ao jogo que ele lhe propusera no baile de máscaras anual do Clube. A proposta não lhe parecera mais do que uma dessas provocações que faziam parte do reportório masculino de sedução dos bailes onde a máscara garantia o anonimato do gesto. E se era para brincar, porque não brincaria ela também? Ninguém levaria a mal, afinal de contas ali era o momento anual do fingimento colectivo, o tal momento que a sociedade permitia a todos os seus membros para, nos outros trezentos e sessenta e quatro dias do ano, manterem as aparências adequadas à posição social de cada um. Na verdade, se havia momento em que cada um se sentia à vontade para ser igual a si próprio, se havia momento em que não havia dissimulação, era o do baile de máscaras. Todos sabiam, embora fingissem não o saber, o que os mais íntimos desejos dos seus maridos, mulheres, sócios, patrões e vizinhos reservavam para o baile, e era na inviolabilidade do pacto de silêncio sobre essa espécie de segredo colectivo que repousava o equilíbrio da sociedade.

Anne alinhou, na convicção, claro, de que tudo começaria e acabaria dentro das paredes do palácio onde o baile decorria. Não esperava, todavia, que um bilhete lhe viesse parar às mãos no dia seguinte. Reiterava o proposto no baile: a continuação do jogo num quarto de hotel nas proximidades para dali a dois dias. E anunciava as condições em que, se fosse do interesse dela, o encontro teria de reunir: estavam obrigados a permanecer estranhos um para o outro, não podiam sequer descobrir traços faciais ou gestos que os denunciassem, ela deveria alugar um outro quarto no mesmo hotel para não levantar suspeitas de um encontro combinado. Explicava-lhe ele que era uma conhecida figura pública, que estava habituado a não confiar em ninguém, e que, por isso, até dela tinha de esconder a sua verdadeira identidade. E presumia que também ela tinha o seu casamento e a sua família, também ela era vista como modelo e referência de estabilidade da sociedade (e não se enganara, de facto), pelo que certamente agradeceria tamanhas preocupações da parte dele. A tudo isto acrescia, segundo ele, o estímulo erótico extra que decorreria da circunstância de, mantendo-se o mútuo anonimato, cada um poder soltar com maior facilidade todos os seus impulsos e fantasias.

Anne hesitou. Mas a promessa de libertação sexual que a manutenção do anonimato deixava revelar acabou por conquistá-la, a par da indesmentível curiosidade que nela provocaram os primeiros contactos físicos com o misterioso sedutor nos salões do palácio do Clube. Compareceu ao encontro marcado e, daí em diante, novos encontros se sucederam com uma periodicidade semanal. Às regras antes comunicadas juntava-se mais uma, ou melhor duas, sendo uma consequência da outra: Anne deveria apresentar-se em cada encontro com uma roupa e uma máscara diferente, e isto a pretexto de uma estranha fantasia do seu amante (porventura não tão estranha quanto isso, talvez fosse mesmo coisa de homens, e a estranha excepção fosse o seu púdico e reservado marido), a de em cada encontro se poder imaginar nos braços de uma mulher diferente, de um conjunto de oito mulheres de membros do Clube que cobiçava. Em cada encontro, Anne seria chamada por um nome diferente pelo seu amante. Se a memória não lhe falhava, fora, por esta ordem, Catherine, Françoise, Jeanne, Fanny, Sophie, Emmanuelle e Letitia. Confessa Anne que a coisa até lhe agradou, porque viu nesse multi-desdobramento de personagens a oportunidade ideal para deitar cá para fora todo o mundo de fantasias que tinha acumulado ao longo dos dez anos da sua aborrecida vida sexual conjugal.

Mas ao oitavo encontro veio a surpresa: Anne também estava na lista, era dela própria que tinha de fazer dessa vez. E exultou com ideia de fazer dela própria sem que o amante percebesse, ou pelo menos tivesse a certeza, que era a própria que ali estava (verdade se diga, coisa difícil, pois o amante dava-lhe sempre a impressão, pelo fervor e intensidade com que pronunciava, ou melhor gemia, o nome de cada uma, que acreditava piamente estar com a amante escolhida em cada encontro). Ao oitavo encontro, Anne a fazer de Anne foi mais voraz e insaciável do que nunca. Com um lençol a cobrir-lhes a cabeça na totalidade – para esse encontro, acordaram previamente apresentar-se os dois assim -, os dois corpos consumiram-se até à exaustão, até que se esvaísse a última gota de sangue, a última partícula de oxigénio. Foi, assim, literalmente, no que toca ao amante misterioso: o último dos orgasmos deixara-o em tal estado de prostração que Anne achou por bem inteirar-se do que se passava com o corpo inanimado do seu amante encapuçado. Deu um pulo: deixara de ouvir a respiração e parecia não ter pulso. Estaria morto? Só se lhe retirasse o lençol da cabeça poderia saber ao certo. Mas, logo pensou, se não estivesse morto estaria a quebrar a regra do anonimato a que ambos se tinham comprometido – e lembrava-se bem que se tinham comprometido, por exigência dele, “para a vida e para a morte”. O melhor mesmo seria retirar-se dali quanto antes. De nada a poderiam acusar, pois ninguém sabia – nem sequer o seu amante – que ali tinha estado (e ela tinha tido o cuidado de reservar um outro quarto para ela sempre com um nome diferente). Para todos os efeitos, não sabia de nada. Da morte ou da vida do seu amante, como poderia saber alguma coisa se nem sequer sabia quem ele era? Iria tranquilamente para casa, tomaria um bom banho, inventaria uma boa desculpa para o seu marido para explicar tão prolongada ausência de casa (e que serviria também como alibi para se livrar de qualquer mal intencionada acusação por parte das autoridades), recuperaria o sono em atraso e, na manhã seguinte, bastar-lhe-ia comprar os jornais para saber se alguma conhecida figura pública teria sido encontrada morta, nú numa cama de um quarto de hotel, com um lençol enfiado na cabeça e com vestígios de sémen por perto. E até já saberia o que dizer ao seu marido: “quem diria, este teu amigo lá do Clube a entregar-se a práticas masturbatórias destas!?” “Mon Dieu! Le monde est perdu!”.

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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10 respostas a Um jogo perigoso

  1. curioso (mer gulhado) diz:

    perigoso é pouco… ceci n’est pas un jeu… c’est l’amo(u)rte et très trés sadique

    antes vivo debaixo d’água 😉

  2. Ivone Costa diz:

    Lindo, Diogo. Bem me parecia que isto tinha tudo a ver com a morte.

  3. Rita V diz:

    Cathe­rine Deneuve, Fran­çoise Hardy, Jeanne Tripplehorn , Fanny Ardant, Sophie Marceau , ‘Emma­nu­elle’ ainda vá que não vá … mas ai se o príncipe sabe que a Leti­tia anda por aqui!
    ah ah ah

    • A minha inspiração para os nomes não andou muito longe, não. Catherine Deneuve, Françoise Dorléac (irmã da Catherine), Jeanne Moreau, Fanny Ardant, Sophie Marceau, Emmanuelle Béart e Letitia Casta. Mesmo Casta, esta é a minha Letitia preferida. A Princesa nunca!

  4. Belo tango. Está agora o Brando à espera da Anne num apar­ta­mento vazio de Paris.

  5. A Anne já vai a caminho, Manuel. Só parou ali no supermercado para comprar manteiga.

  6. Maria do Céu Brojo diz:

    Muito bem jogado, sim senhor!

  7. É mesmo, parece que a Anne aprendeu depressa – até depressa demais – as regras do jogo. E, no jogo jogado, as mulheres levam sempre a melhor sobre os homens.

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