Uma teoria tola a propósito de pornografia antiga

antique

 

Eu tenho uma teoria tola. Tão tola que sempre tive medo de a expor. É no que dá o credo atual – que já não é o da Santa Igreja Apostólica, Católica Romana, mas o do politicamente correto. Bom, mas adiante, a minha teoria tola parte do seguinte pressuposto: quanto mais abrangente for o lícito, mais o ilícito se extrema, sem que provavelmente diminua o seu consumo.

A coisa dita assim parece estranha. Mas na minha teoria tola há uma zona de ilicitude (mercado negro, pornografia, venda de drogas, contrabando, etc.) que é mais ou menos constante. Lembrei-me desta intuição sociológica ao ver e ler O primeiro beijo do Diogo Leote (ou melhor o seu post). O beijo casto, sem sex-appeal era o que se arranjava na altura, o lícito, quando ainda era um frémito ver o calcanhar de uma mulher, na altura em que a fotografia de um seio vagamente destapado era vendida como pornografia ‑ o ilícito.

O mundo evoluiu. Com os meus 12 ou 13 anos, lembro-me de ver em casa de um colega, numa revista manhosa que ele para lá tinha, uma mulher em tronco nu com uma saia curta que destapava um pouco as cuecas. Que escândalo! Mas lá estava a zona da ilicitude a passar do calcanhar e de um insinuante seio para as escâncaras do par de mamas e das cuequinhas.

Mais tarde, os filmes dinamarqueses e suecos em Super 8 (caro PN, cada um é especialista na cinematografia sueca a que o seu cérebro ascende) já mostravam mais… ilícitos. E por aí me fico, porque na Internet, hoje, veem-se coisas que seriam impensáveis nessa altura, enquanto na praia se pode ver mais do que nas revistas softcore dos meus 12 anos. (É claro que não estou a entrar em conta com a pintura, porque essa não era entendida como representação da realidade real).

Voltando à teoria tola, à medida que o lícito se foi tornando mais abrangente o ilícito tornou-se mais estranho, mais marginal, mais agressivo, mais violento. Mas terá diminuído?

E a pergunta é: a liberalização dos costumes contribuiu para um mundo mais equilibrado ou mais tarado? Não sei a resposta, mas por mim sinto-me bem com qualquer uma…

O que tenho quase a certeza é que a liberalização de um ilícito não faz diminuir a procura de ilícitos. Haverá sempre uma barreira moral e existirá sempre quem a queira transgredir e faça dessa transgressão negócio. Independentemente do que seja lícito mostrar, fazer, fumar ou snifar.

Não sei se me faço entender, mas vou-me fazer desentendido…

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
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12 respostas a Uma teoria tola a propósito de pornografia antiga

  1. Eng. Rafael Chust diz:

    Concordo e mais digo: que sentido faz tolerar um costume ilícito, como a prostituição e o consumo de drogas leves?

    • Henrique Monteiro diz:

      Pois, a minha questão é desse tipo. Legalizando isso, não puxamos para o mercado do ilícito coisas mais extremas (que aliás já existem marginalmente)?

  2. Cecilia Pereira diz:

    Inclino-me no sentido de que a liberalização de costumes tem sido a acendalha de uma depravação quase sem limites. O que é assustador na medida em que torna tudo e todos mais vulneráveis.

  3. Célia Abreu diz:

    … costumes. o que são costumes? quem os define e limita? dificilmente poderemos falar em costumes ilícitos ou liberalização de costumes pela sua própria definição. porém, considero correcta a expressão “liberalização de um ilícito”. um ilícito deixará de o ser ao passar a costume.

    • Henrique Monteiro diz:

      Costumes são, por definição, aquilo que é prática comum. Moeurs (mores em latim), o usual. A pergunta-tipo: quem define? quem diz? quem decidiu? parte do princípio a-histórico de que o mundo começou ontem e que a nossa geração pode fazer o que entende sem ter de prestar contas aos mortos. Eu sei que parece estranho, mas não
      é…

      • Vasco (da) Gama diz:

        o que esta geração não faz é prestar contas aos mortos, quando muito ao vivos (e as nossas contas são o nosso legado)

  4. Vasco (da) Gama diz:

    Em sociedades como a nossa (e creio que isto é universal), com uma forte tradição religiosa,que se procura libertar do peso dessa tradição. Surgem problemas relacionados com um crescente abandono de princípios morais, mas a religião é algo que está bem aprisionado na cultura da sociedade (que se procura libertar dessa tradição. As recentes sociedades laicizadas (e que procuram promover essa sua qualidade) acabam por se debater com o problema de não encontrarem vias de promoção de princípios morais (e mesmo de uma moral laica, liberta da sua tradição), pelo esses ditos ilícitos vão naturalmente evoluindo com o tempo, uma vez que passam a ser apenas conformados e aceites legalidade. Nestas sociedades o grande critério para validar o que quer que seja é o facto de qualquer actividade (lícita ou ilícita) ser do agrado e conveniência dos intervenientes e do eventual prejuízo (mais ou menos directo a terceiros). Neste sentido fácil e consistentemente o ílicito se vai transformando em lícito (e eventualmente recomendável).

  5. Curioso (o trigo e o joio) diz:

    Se fosse só a pornografia… não teríamos a actual austeridade troiquiana e coelhónica. Vamos voltar à ‘pornografia das antigas’ ‘custe o que custar’ a história repete-se e até os hospitais vão ser (mais) eficientes. Onde é que a abundância e a resultante irresponsabilidade conduziram? Temos que vigiar a seara?

  6. Os surrealistas só queriam disparar um aleatório tiro sobre a multidão, vai daí um miúdo americano…

  7. curioso (back down) diz:

    então o resto? entrou a soda cáustica no sistema?

  8. Olinda diz:

    a indústria do sexo, entendida também como da saúde e bem estar, só existe e prolifera porque há repressão sexual – repressão sexual nos cérebros, não há contradição.

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