“Vertigo”: a Espiral do Cinema

"Vertigo - A Mulher Que Viveu Duas Vezes", de Alfred Hitchcock

“Vertigo – A Mulher Que Viveu Duas Vezes”, de Alfred Hitchcock

Em “Vertigo – A Mulher Que Viveu Duas Vezes”(1958), a maior das obras-primas de um génio necrófilo e tarado sexual, há uma cena que define o que todos os homens e mulheres querem. ‘Scottie’ Ferguson (James Stewart), um detective de San Francisco compulsivamente reformado após as suas vertigens o impedirem de salvar um polícia numa perseguição pelos telhados da cidade, é contratado por um velho amigo, Gavin Elster, para seguir a mulher deste, Madeleine (a crocante Kim Novak). Madeleine parece assombrada pelo fantasma de Carlota Valdez, falecida no início do século, de cabelo louro platinado, preso em espiral, a espiral do eterno retorno. Madeleine torna-se – ou é? – uma sósia de Carlota e presta culto às milenárias sequoias de Muir Woods, nas encostas a norte da Golden Gate Bridge. Apaixona-se por Scottie, ele arrasta o queixo, caidinho – tão caído como um Orfeu de 50 anos ficaria por uma Eurídice de 25 – mas ela não aguenta o tormento de Carlota: atira-se do alto da torre da igreja de Mission San Juan Bautista, uma quinta de franciscanos ainda mais perto dos ventos árticos. Scottie entra em depressão profunda, e regressa – ou sonha o regresso? – ao quotidiano como um morto-vivo. Até que, um dia, vê nas ruas da cidade a doppelganger de Madeleine/Carlota. A dupla chama-se agora Judy, usa o verde do ciúme e tem os cabelos ruivos como uma musa pré-rafaelita. Scottie não descansa até transformar as cores de Judy nas cores de Madeleine, a roupa de Judy na roupa de Madeleine, os gestos de Judy nos gestos de Madeleine. E chegamos à cena em que, no Empire Hotel onde Judy vive, ela surge perante Scottie. Está vestida, penteada e maquilhada como Madeleine, o cabelo quase branco na espiral de amour-fou, o saia-casaco cinza, fulgente no desejo por Scottie, ardente no desejo de Scottie. Os violinos de Bernard Hermann, como os adágios sehr langsam de Gustav Mahler, sentenciam o fim do círculo: não é apenas Madeleine/Carlota que vive duas vezes; é Scottie que vive outra vez.

Como lembrou Chris Marker, outro realizador assombrado pela memória, o mito germânico do doppelganger reflecte o desejo de todos os homens e de todas as mulheres por viver mais do que uma vida. Foi o que o Romantismo sugeriu e o movimento surrealista jurou durante duas décadas, e é o que fazemos quando assistimos a um filme – viver outra vez. É por isso que este é o filme dos filmes: ele lembra-nos que o cinema tem o poder de nos dar mil vidas, as vidas a que nunca poderíamos aceder fora da escuridão hierática das salas. Porque o cinema é amor e sexo, e o amor e o sexo são a melhor forma de escaparmos à morte.

Publicado na revista “Sábado” (onde há uma classificação de 1 a 100 para os filmes estreados; “Vertigo” foi o primeiro a que dei 100 – se não desse a este, daria a qual?)

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.

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7 respostas a “Vertigo”: a Espiral do Cinema

  1. Ivone Costa diz:

    Pierre Marta, eu acho este texto brilhante. Sou suspeita, é um dos “meus” filmes mas, para além disso, acho que fica tudo dito sobre Vertigo e o eterno retorno e o que cinema dá. E tanto dá que até dá textos destes.

  2. O verde ciúme de uma musa pré rafaelita é muito bom, Pedro. 100 pontos.

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    Faço minhas as palavras da Ivone. Ainda bem que a li antes de perorar sobre tema que me é tão caro.

  4. nanovp diz:

    Outra vez , please….

  5. O “Vertigo” é, em simultâneo, a Capela Sistina e o Les Demoiselles d’Avignon. O mais moderno dos clássicos, o mais clássico dos modernos. Só nas salas, vi-o umas vinte vezes, o que traz um certo conforto de intimidade. Abs

  6. diogoleote diz:

    Pedro, só pelo teu magnífico post fui rever o filme (tenho-o aqui comigo, sempre à mão). E acabei a gostar ainda mais dele.

  7. Diogo, os filmes são lixados: é como se estivéssemos na mesma sala, a sorrir,suspirando, para as mesmas imagens. Um grande abraço para ti.

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