Vive La Folie!

Holy Motors“Holy Motors”, de Léos Carax

Este filme é uma pedra.

O regresso do originalíssimo Léos Carax após 13 anos de ausência, “Holy Motors” é a mais rara das espécies: uma obra experimental de génio. É o filme que todos os aspirantes a “autores” gostariam de fazer quando forem grandes. Mas, para um realizador se afastar das premissas e da estrutura da narrativa clássica, torna-se necessário um talento superlativo. E o mundo é, na sua vastidão, um deserto de esterilidade autoral, porque o talento genuíno é tão raro como uma fonte de água na areia do Kalahari. A história (?) relata algumas horas na vida de Monsieur Oscar (o alter-ego de Carax, Denis Lavant, santo bebedor do cinema francês), um magnata rodeado de seguranças que circula pela vida, pelos sonhos, pela memória numa limousine branca, conduzida pela bela septuagenária Céline (Edith Scob, a actriz de “Les Yeux Sans Visage” de Georges Franju, clássico heterodoxo do cinema de terror ao qual “Holy Motors” presta homenagem). Carax recupera a busca do Amor do alucinado – e ultra-romântico – “Os Amantes da Pont-Neuf”, regressa à atmosfera doentia do extraordinário “Mauvais Sang”, atravessa o musical – Kylie Minogue e a sua canção de dor e dolo -, pisca o olho ao vazio da moda (Eva Mendes como top-model num papel que estava destinado a Kate Moss), mergulha na ficção-científica, reinventa o thriller – há uma vaga intriga policial filmada com pinceladas dignas de Max Ophuls – e entrega-se a uma meditação sobre a beleza que brilha como os momentos mais retorcidamente luminosos do “Wild at Heart” de David Lynch. “Holy Motors” é o filme mais louco e mais livre do ano. Deixe-se ir.

Publicado na revista “Sábado”

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.

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5 respostas a Vive La Folie!

  1. Não vi, claro, nem sei quando verei. Tenho boas recordações (mas já vagas) do Mauvais Sang que meti num ciclo de cinemateca nos tempos em queme dava muito bem com os franceses, mas fez-me impressão – não necessariamente positiva – a máscara à la Yeuxs Sans Visage… Vou ver, claro,

  2. Vê, doutor. Pode ser que lá encontres espectros de gratas recordações, ou as pautas enérgicas de uma música dissonante.

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    E lá seguirei rumo à «pedra», mais do que convencida.

  4. Rita V diz:

    já somos duas …

  5. nanovp diz:

    Caro Pedro, desiludi-me com “Os Amants de Pont Neuf”, que gostei apenas dos primeiros minutos. Vou ver se ganho coragem, graças muito ao texto empolgado!

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