A Caça

 

"00H30 A Hora Negra", de Kathryn Bigelow

“00H30 A Hora Negra”, de Kathryn Bigelow

Filme contemporâneo de guerra – a guerra ao terrorismo -, “00:30 A Hora Negra” tem sido atacado por todos os lados: a feminista e simpatizante democrata Naomi Wolf comparou a realizadora Kathryn Bigelow à cineasta oficial do regime nazi, Leni Riefenstahl, pela “apologia” da tortura; o senador republicano e ex-candidato à presidência dos EUA, John McCain, acusou do mesmo Bigelow e o argumentista Mark Boal; alguns comentadores já usaram a palavra “fascista”, e a comissão de serviços secretos do senado norte-americano anda a investigar se Bigelow e Boal terão tido acesso a documentos “top secret” da CIA. Ou Wolf, McCain e o senado estão com problemas oftalmológicos, ou não viram o mesmo filme que nós. “00:30 A Hora Negra” retrata mais de uma década na caça a Osama Bin Laden após o atentado às Torres Gémeas que vitimou três mil civis, e é de uma secura equivalente à contenção emocional dos homens e mulheres que retrata, a contenção exigida pela natureza do seu trabalho: reunir dados sobre o inimigo, capturá-lo e, se necessário, aniquilá-lo. O trabalho de Boal mostra um rigor implacável no tratamento da complexidade da matéria, e não deixa ninguém inocente, como não condena ninguém em definitivo:  Barack Obama surge numa suspeita ingenuidade, os operacionais da CIA que utilizam a tortura para obter informação perdem o contacto com o dia-a-dia e crescem num esvaziamento emocional, e Maya, a jovem agente que comanda a busca (óptima Jessica Chastain), não tem família, não faz amigos – a única colega que se presta a isso acaba em pedaços num atentado suicida – não pratica sexo, não permite relações amorosas. O filme era originalmente sobre o insucesso da captura de Bin Laden, mas foi reescrito após a operação de Maio de 2011 que vitimou o líder da Al-Qaeda. Terá sido um ataque, não de captura, mas de execução? O filme revela-nos que Bin Laden foi morto logo que avistado, mas não responde claramente à pergunta. São duas horas e meia cronometradas ao segundo, com o grosso da acção dedicado ao trabalho frustrante e aos becos sem saída – as cenas de tortura surgem logo no início, mas não existe, nem qualquer tentativa de exploração emocional da violência (a esse propósito, há palavras e imagens bem mais duras num episódio à escolha de “Homeland – Segurança Nacional”), nem qualquer crítica ao terrível (e duvidosamente legal, mesmo ao abrigo do “Patriot Act”) método utilizado para obter informações. Os últimos 25 minutos concentram-se no ataque de 2 de Maio de 2011 por Navy Seals à residência fortificada de Abbottabad, no Paquistão. É uma investida filmada em tempo real, e a justeza plástica e o talento narrativo de Bigelow revelam-se mais intensos do que nunca, colocando-a ao lado de Michael Mann como melhor realizadora de acção do momento. Porque para Bigelow, a acção é a tradução suprema do génio e horror do pensamento humano. Enquanto prossegue a polémica sobre a divulgação das 52 fotografias tiradas ao cadáver de Bin Laden na sequência do ataque, “00:30 A Hora Negra” nega-nos o prazer gráfico do rosto do terrorista abatido, e essa é uma das medidas da sua sobriedade. No plano final, digno de um Botticelli agrilhoado por Mondrian, só resta a solidão. Grande filme.

publicado na revista “Sábado”

 

 

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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6 respostas a A Caça

  1. anaritaseabra diz:

    Fiquei fã da Bigelow com “The hurt locker” e com este revelou-se uma realizadora fantástica.
    Compará-la à Leni Rie­fens­tahl é um exagero.
    Fascinou-me a personagem, a dedicação, a determinação, a obsessão para chegar com a missão ao fim.
    Que bom haver textos destes aqui!
    Obrigado Pedro

  2. Tem de ver o filme de estreia da Bigelow, Ana Rita, um filme de vampiros texanos chamado “Near Dark”. Um dia destes escrevo sobre isso.

  3. nanovp diz:

    Caro Pedro, deliciei-me com o texto, també,m porque o filme me surpreendeu positivamente, mesmo sabendo que o tema seria dificil, e a alta expectativa depois do “oscar”( que pode destruir carreiras não é?). E depois , digam o que dissereem, é esta auto crítica que dá à “America” a capacidade de se ir re-inventando na história, com todos os seus erros e defeitos…

  4. Precisamente, Bernardo. Nos EUA, o contraditório é não só sempre possível como desejado.

  5. Maria do Céu Brojo diz:

    OK. Não vou perder! Agora, com olhar mais crítico pela sua intervenção.

  6. Não perca, Maria do Céu. É um cinema escorreito mas incansavelmente inteligente.

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