A Fada Malvada no Reino da Estupidez

 

A literatura não pode ser ensinada. Ensinar seja o que for é apresentar um instrumental adequado e explicar a maneira de uma pessoa tirar proveito dele. Daí resulta que se ensina a escrever estudos sobre literatura, e estudos sobre os estudos de literatura, indefinidamente; ou ainda se ensina a ensinar literatura.

 Jorge de Sena in O REINO DA ESTUPIDEZ

 

O REINO DA ESTUPIDEZ
– TODO EM RIMAS BEBÉS: i, ii e iii –

 i – AS DAMAS
Era uma dama
Mas ó escritora-poeta
Deitada na cama
Tinha um leque
De lantejoulas
Uma estética
Anti-ceroulas
E a bem da verdade
Da realidade e
Dos aromas e dos odores
Apenas perfumes
Exalavam dos corpos
Dos campos das flores
Em cada verso relambório
O esforço do dicionário
Deixava-a exausta e rouca
– Sacrificava-se
Pois se era douta
E vá de tisana
Para acalmar o melodrama
De tanta sabedoria anafada
Tinha a cabeça pesada
E nem a erguia
Da almofada
Era por isso uma dama
Mas ó escritora-poeta
Deitada na cama

ii – PIM PAM PUM
Não me ensine o seu plural
não penduro as minhas frases
no seu estendal
Pode levar as minhas molas
de gramáticas coloridas
as sintaxes mais que ridas
vá pervertidas
já disse deixo levar
há muito mais por inventar
e tenho a chave desse portão
à guarda do meu Cão
ão ão
Não não lhe fica mal
quem sabe cria
quem não sabe copia
– e se é preciso copiar e copiar e copiar
para criar –
Ó de si coitado todo atrapalhado
a escrever com o braço por cima
para esconder a paráfrase traduzida em sub-rima
escarlatina tinha a prima Tina que sina caiu na piscina
Todo tão estudioso
sabe bem se o cabelo for seboso
ninguém lhe olha os pés
de revés
Deslargue lá tire o braço
destape não tenha medo
as palavras só são boas quando são de comer
de fazer-se sangue e correr
nas veias ideias de ser
O resto é palhaçada
para corte de rei vai nu
se não é bom que o rei seja eu
não é bom que rei sejas tu –
pronto perdão do tu cá tu lá
você vossa excelência
vá já a correr obedecer ao seu deus
seja bonzinho sabujo e comportado
escreva tudinho ortografado
em transcontinental português
upa upa
e que estrangeiros são o brasileirês
o angolanês o moçambiquês
ui o medinho da onda contra-ultramarina
em fracturante culpado imperial português
Fique com os agás de pescoço cortado
todos para si ´tá
não fazem melhores estórias
que histórias li em pequena
pena pena pena
dos cês caídos na valeta
o espetador cego nada vê espeta
jack estripador contrariado
porém bem acordado
tenta desde o acordo de 1990
dormir
– também queria
e o bem que a esta orto-insónia me faria
Aos senhores doutores todos poderosos por acumulação
inquisidores
escrevedores
criticadores
pensadores
amigadores
ofereço um balão:
cabeça de ar quente
também é gente

iii – SUMÁRIO
Um dois três
Leia tudo outra vez

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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14 respostas a A Fada Malvada no Reino da Estupidez

  1. Atrevo-me a dizer-lhe, Eugénia, que o poeta Jorge de Sena havia de gostar do seu As Damas. Há nele, As Damas, escondido na irrisão e na aparente desfaçatez com que consegue ser leve, uma ideia elevada e visceral da literatura que o poeta partilharia com gosto e consigo. Gostaria outro tanto do seu PIM PAM PUM por ser tão tão mal educado no ritmo e na rima com as mesmas Excelências que ele apostrofou. Gostei muito.

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      Isto de haver alguém capaz de ler os nossos pensamentos quando lê as nossas linhas, ó diabo, é bom. Muito obrigada, Manuel Fonseca.

  2. curioso (ba-lão-lão)) diz:

    dlim dlão quero um balão
    -se ler outra vez quero
    —quero logo três

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      Se é para pedir, peça muitos, não dois ou três
      peça aí uns cem para receber, vá, uns dez.

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    E li, e li. Estendal de humor e talento.

  4. Merci Céu: nem sempre a irreverência é irreverência,

  5. Rita V diz:

    bem me parecia que me tinha esquecido de qualquer coisa:
    – dos pós de perlimpimipim!
    😀

  6. José diz:

    eu teria deixado cair as “palavras de comer”. foi da maneira que fui trautear outra vez “a defesa do poeta” da natália correia. gosto tanto da natália correia… mas também gosto deste seu poema que me fez cantar a falar; e mais não digo, que já me sinto a desafinar 😛

    • “A poesia é para comer” é o que diz a Defesa do Poeta, não é? É sim, graças ao Google fui mesmo agora lê-lo… Não tem mal haver aproximação ou mesmo comunhão de ideias, só tem bem. Nunca deixaria cair palavras de comer. Não desafinou. Merci.

  7. curioso (pós fada) diz:

    oh… a fada foice foi-se?

    —-obra dos pòzinhos?

    ——per lim pim pum!

    —cada fada dá facada

    ——–e mata um 😉

  8. António Barreto* diz:

    Mais logo…

  9. nanovp diz:

    Tive de parar de vez, para não voltar a ler, uma outra vez, um dois três…

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