A mama de Julieta

A arrumar uns livros deparei com uma das fotografias mais imbecis que tirei na vida. Estou em Verona, sob o olhar desaprovador da minha mulher e um ar de gozo da minha filha mais nova, então com uns 12 anos, a apalpar a mama da Julieta. Como compreendem, e os bons costumes aconselham, a Julieta é uma estátua que representa a pretendida de Romeu, imortalizada por Shakespeare, depois do desditado caso de amor ter sido já escrito por vários outros autores anteriores.
Por que razão apalpei a Julieta? Porque os guias turísticos dizem que dá sorte apalpar a mama da senhora (que aliás está muito mais polida do que o resto da estátua, tal tem sido o uso).
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Passados uns anos largos é a altura ideal para fazer um balanço: afinal a mama da Julieta deu-me, ou não, sorte? Sei lá! Se não tivesse apalpado a mama estaria pior? Fiz bem? Fiz mal?
Não há uma resposta – a mama da Julieta é como o resto. A única resposta clara é esta: fiz uma triste figura de parvo! Disso não tenho dúvida.
Julieta, teenager inconsciente que se matou ao ver o seu amante morto por ter pensado erradamente que ela tinha morrido, simboliza, afinal, que mesmo a morte pode ter uma utilidade – Capuletos e Montecchios, famílias há muito desavindas, reconciliam-se sobre o os cadáveres dos seus filhos mortos pelo o amor um do outro (como se vê, abaixo, no quadro de Frederick Leighton).
E aqui chegado, sim, penso que, tal como no diz no Eclesiastes, tudo na vida, até a morte, tem um propósito.
E o propósito daquela mama exposta por Julieta é ser apalpado para que, mais tarde, nos lembremos de que valeu a pena a triste figura.
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Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
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9 respostas a A mama de Julieta

  1. Compreendo-te bem, Henrique. Sempre tive vontade de apalpar as mamas à Vitória de Samotrácia, com a vantagem de ela não poder ver-me enquanto concretizava o desejo.

  2. 🙂 Já lá estive, em Verona e na casa da “Juliet”, há para aí 15 anos, era novita, mas não apalpei as ditas cujas – não por ser mulher, não, mas porque, infelizmente, ninguém me disse nada disso. Será por isso que a minha escolha profissional veio a revelar-se desastrosa? 🙂 Ou seja, era boa mas estão a torná-la má, mesmo má. Quando sai o próximo voo para Roma?

  3. Pedro Norton diz:

    Eu, tal como o Pedro ali em cima, preferiria apalpar as mamas da Vitória ou, ouro sobre azul, as tetas da Vénus de Milo. Assim como assim, a probabilidade de levar uma chapada diminui vertiginosamente.

    • Henrique Monteiro diz:

      A Vénus era conhecida por dar pontapés formidáveis em partes dolorosas. É preciso ter cuidado com o Olimpo

  4. Curioso (toma!) diz:

    Pobre Pedro 😉

  5. Só tenho uma coisa a dizer: vocês são ainda pior do que eu pensava. Não protejam os museus, não, que de Henrique a Pedros, desfloram a arte toda.

  6. Curioso (maca quinho) diz:

    Cobardemente a dita sem defesas 😉

  7. Rita V diz:

    … Verona, Siena, Lucca, San Gimignano, fiquei para aqui a suspirar.

  8. António Barreto* diz:

    “famílias há muito desavindas, reconciliam-se sobre o os cadáveres dos seus filhos mortos pelo o amor um do outro (como se vê, abaixo, no quadro de Frederick Leighton).”

    Não foi esse o propósito da Jesus Cristo? A dor e a morte redimem? Em que medida?

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