A organza de Scheherazade

 

 

Gustav Klimt - The Kiss

Gustav Klimt – The Kiss

Fazer como Scheherazade. Sabiamente reservar o mistério deixando por contar, a cada noite, pedaço de narrativa que cativa. Prolongar a estória pela subtileza dos silêncios. Conservar sob véu de organza os pensamentos e encobrir impulsos com renda embrincada.

Do rei persa Xeriar, ela conhecia a raiva pelas mulheres após cilada daquela que muito amara. Sabia que virginal e nova esposa a cada dia ele fazia sua para no fim da noite a assassinar. Desobedeceu à vontade do pai temeroso e casou com o rei. Porque curiosa e destemida? Pelo desafio de acordar para nova aurora onde outras soçobravam? Por amor incondicional ao rei que de si próprio fizera esquife, não foi – arguta, sabia a duvidosa valia do descrer sistemático na possibilidade de ressurreição para vida nova.

Durante mil e uma noites ela contou estórias engenhosas. Edificantes. Cada uma enlaçada com a seguinte. O final sempre adiado para o anoitecer do amanhã. Veio o amor. Vieram três filhos gerados em inolvidáveis êxtases, sem que o véu de fina organza resvalasse e da mulher expusesse os segredos. Xeriar cicatrizou a chaga de ódio que o perseguia. Depois, reconheceu amar Scheherazade e dela fez rainha. A tanto chegou a persistência e a força dum afeto cujo balbuciar desconhecia, quanto mais a fala.

Nota: texto esquecido na arca dos escritos.

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade. No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria. Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.
Esta entrada foi publicada em Ficção. ligação permanente.

4 respostas a A organza de Scheherazade

  1. António Barreto* diz:

    Uma sabidona essa Scheherazade!

  2. mariabrojo diz:

    O que só lhe ficou bem ao transformar o Xeriar predador em humano. Não é semelhante ao que quotidianamente fazemos com os filhos?
    A pedagogia pelo exemplo e doçura do afeto genuíno.

  3. Faz, e muito bem, pendant, com o Decameron do Henrique.

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    Esta coisita menor conseguiu tal feito? Olha que bem.

Os comentários estão fechados.